Terça-feira, Julho 14, 2009

Livres para continuarem presos

Há três meses, a DOM me convidou para desenvolver uma pauta diferente das colaborações que eu vinha fazendo para a revista. Em mês de parada gay (a matéria era para a edição de junho, aquela com o modelo negro na capa), a ideia era fazer uma reflexão sobre os diversos padrões de beleza que imperam no meio LGBT. Para isso, eu tinha que entrevistar gays, lésbicas e trans bem diferentes entre si (ou melhor, que compusessem um painel esteticamente heterogêneo) e ouvir o que era "bonito" para eles, como cada um lidava com a própria beleza e também o que valorizava nos outros.

Como o assunto era justamente a aparência, não bastava colher algumas aspas (declarações) anônimas dos entrevistados, como fiz na matéria sobre sexo pago: era fundamental que eles aparecessem na revista. Mas, para meu espanto e surpresa, foi dificílimo encontrar personagens para a matéria. Ninguém queria mostrar a cara. Amigos e conhecidos que sempre foram bem resolvidos, que haviam assumido a própria sexualidade para famílias e amigos sem maiores grilos, ficavam ruborizados diante do meu convite e gaguejavam até finalmente responderem... que não topavam. Mesmo quando eu explicava que a matéria não devassaria a intimidade, nem exporia gostos sexuais. O simples fato de aparecer em uma revista gay, ainda que ela fosse lida quase exclusivamente por outros gays, era demais para a cabeça dessas pessoas.

Algum tempo depois, no finalzinho de junho, recebo por e-mail o release de um novo site gay (sobre o qual eu nunca tinha ouvido falar, e continuo não ouvindo), chamado Dolado. Vou guardar as impressões sobre o site para uma outra oportunidade (por enquanto, apenas adianto que levei uns 5 minutos para decifrar o nome: "do lado", entenderam?) e me ater ao que o release colocou como a razão de ser do novo produto. "Um site que pudessem acessar publicamente, sem expor sua sexualidade ou serem rotulados", "para atender ao público gay e aqueles que preferem ficar longe dos rótulos". Diz o slogan: "eu sou gay, eu sou sem rótulo, eu sou dolado". Longe de rótulos... ou dentro do armário mesmo?

Revelar ou camuflar a própria orientação sexual, total ou parcialmente, é uma escolha individual que deve ser respeitada; sou totalmente contra arrancar outras pessoas do armário em nome de um suposto "bem" à causa gay. Respeitei quem não quis colaborar com a minha reportagem, assim como quem precisa de um site que "fuja de rótulos". Mas essas coisas me mostraram que a naturalidade com que eu enxergo certas coisas é bem menos comum dentro do próprio meio do que eu imaginava. Às vezes minha mãe discute comigo; ela me chama de ingênuo, diz que o mundo é perverso e eu não meço as conseqüências ao não me importar com a opinião dos outros da mesma maneira que ela. Ela acha que eu vivo numa bolha de tolerância e isso faz eu baixar a guarda mais do que deveria. Talvez ela esteja certa: quem circula em ambientes relaxados tende a se expor mais. Mas não sei se isso é necessariamente ruim - pelo menos para mim, a vida fica muito mais leve assim.

Terça-feira, Julho 07, 2009

Meu sonho é continuar bem perto

Estávamos eu e alguns amigos batendo um papo solto, falando sobre ambições materiais, planos para o futuro, e o assunto acabou naquele jogo de "o que você faria se ganhasse bastante dinheiro". Todos se puseram a imaginar o endereço das suas casas ideais, e comparar as respostas. A minha teria que ser em uma entre cinco regiões: Moema, lado pássaros, de preferência na Inhambu, Pintassilgo, Tuim ou Pavão; Vila Mariana, entre o Instituto Biológico e o Metrô Ana Rosa; Paraíso, especialmente na Teixeira da Silva; o trecho da Alameda Franca entre a 9 de Julho e a Melo Alves; ou Sumaré, no finalzinho da Dr. Arnaldo, Rua Havaí, Bruxelas, Apinagés.

Todos esses são bairros bons para se morar. Mas eu poderia ter citado outros, alguns até mesmo mais caros, já que naquela brincadeira dinheiro não era problema: Higienópolis, Vila Nova Conceição, Jardim Europa, Pacaembu, Cidade Jardim, Butantã, Morumbi. O que havia influenciado minha escolha? Depois de pensar um pouco, percebi que todos os lugares que eu havia selecionado me eram mais do que familiares: eles tinham adquirido um significado pessoal na minha infância. Cresci andando com minha mãe por Moema, brincando em uma pracinha perto de casa. Meus avós maternos sempre moraram na Vila Mariana e minhas tias-avós, no Paraíso. A Alameda Franca era a rua dos meus avós paternos. No Sumaré ficavam a minha psicóloga e a casa de uma prima do meu pai, para onde eu ia logo depois da terapia.

Comecei a me perguntar se essa busca da memória afetiva era uma particularidade só minha, uma simples demonstração de apego ou saudosismo. Tenho amigos que já passaram por inúmeros endereços, em várias zonas da cidade, sem jamais olhar para trás. Por outro lado, eu, em 31 anos de vida, morei sempre no mesmo apartamento, olhando sempre pela mesma janela do mesmo quarto. Encaixotar coisas, só quando era inadiável pintar a casa. Minha experiência é bastante peculiar, mas, pensando melhor, o apego às raízes não é assim tão incomum, nem tem a ver com nascer em bairro nobre ou pobre. Já li entrevistas de gente humilde que ganhou dinheiro na televisão ou no futebol e, apesar de ter melhorado de vida, optou por comprar uma casa no mesmo bairro ou morro. No Rio, muitos suburbanos que ascendem migram para a Barra; em São Paulo, eles podem mudar para o Tatuapé, mas preferem não sair da Zona Leste.

Continuando o jogo do faz-de-conta, imaginei que, se eu fosse milionário mesmo, também compraria um apartamento no Rio, para usar como refúgio hedonista e garçonnière de verão. Minha escolha ali provavelmente ficaria com o Posto 6: Conselheiro Lafaiete, Rainha Elisabeth, Bulhões. Mesmo com possibilidade de trocar o povão de Copacabana pelo charme arborizado do Jardim Botânico, a fofura interiorana da Urca ou o "jeito Manoel Carlos de ser" do Leblon, acho que eu ficaria mais feliz tomando o mesmo café-da-manhã no supermercado Zona Sul da Francisco Sá e fazendo o mesmo caminho a pé até a praia. Não por acaso, foi no Posto 6 que moraram uns amigos cariocas muito queridos, e a casa deles foi, por muito tempo, minha referência e minha casa também.

Sábado, Julho 04, 2009

Guia Introspective da gastronomia econômica

A menos que você se contente com a praça de alimentação do shopping, comer fora pode custar um bom dinheiro. Os três lugares que os gays frequentam à exaustão (Spot, Ritz e Mestiço) não são exatamente baratos, assim como boa parte dos meus restaurantes favoritos (Due Cuochi, Carlota, Nam Thai, Sal Gastronomia, Mori). No entanto, a cena gastronômica de São Paulo é vasta e também tem boas opções para quem não quer gastar muito. Em tempos de vagas magras e orçamentos apertados, divido com vocês algumas sugestões mais econômicas do meu roteiro. São opções para todos os gostos e apetites, sempre com uma relação custo-benefício atraente. Aproveitem.

COMEDORIA [foto]. Com jeitão de "refeitório dos Jetsons", o modernoso restaurante do SESC Pinheiros é uma das opções mais bacanas para quem quer almoçar com alguma dignidade e gastar o mínimo possível. Você pode escolher entre o prato do dia, que já vem montado ("Fogão Cultural"), ou uma segunda opção ("Brasileirinho") em que se paga separadamente por cada item. Molhos cheios de bossa ajudam a fugir do trivial: o filé de frango ganha um toque de gengibre e mel ou laranja e curry, o pernil vem preparado com romã ou damasco, o peixe é servido com um creme de kani kama ou uva itália. Mesmo com saladas e sobremesas à parte, é difícil gastar mais do que 15 reais. Rua Paes Leme, 195, Pinheiros.

ATHENAS CAFÉ. Com localização estratégica, bem na esquina do Espaço Unibanco de Cinema, esse despretensioso bar-restaurante vê sua clientela aumentar a cada noite. Quem fica só na cerveja não sabe que os pratos do cardápio saciam até mesmo os mais famintos - sobretudo os fartos grelhados, que vêm com três acompanhamentos, depois de uma salada também incluída. Os preços são camaradas: o frango athenas (iscas de frango marinadas em laranja e tomilho) custa apenas R$19. Para confirmar a temática grega do lugar, não poderia ficar de fora o típico moussaká (gratinado de berinjela, batata e carne moída, coberto com molho bechamel). Rua Augusta, 1.449, Cerqueira César/Consolação.

CENTRAL DAS ARTES. Um dos meus xodós na cidade, ocupa um gostoso sobrado modernista, com cadeiras e luminárias coloridas. A parede envidraçada mostra uma linda vista de Perdizes, emoldurada pelos prédios da Paulista no horizonte. O menu tem sanduíches, sopas e saladas, mas a especialidade são os crepes. Indico o rodin (mussarela, presunto, catupiry e maçã), o dijon (queijo derretido, cebola dourada e mostarda francesa) e o arpad (chocolates ao leite e branco, castanhas maceradas e sorvete de baunilha). Rua Apinagés, 1081, Sumaré.

CONSULADO MINEIRO. Velho conhecido de quem ferve na Praça Benedito Calixto nas tardes de sábado, é completamente gay friendly e serve culinária mineira caprichada, em porções generosas: dois pratos satisfazem 5 pessoas. Poucos se lembram que o Consulado tem um segundo endereço, a algumas quadras dali, onde a economia é ainda maior. A filial da Cônego prepara, no almoço de segunda à sexta-feira, um incrível bufê, com todas as especialidades da casa, por apenas R$18,90. É quase bom demais para ser verdade. Praça Benedito Calixto, 74; Rua Cônego Eugênio Leite, 504, Pinheiros.

CHARLES PIZZA GRILL. Paladares mais exigentes costumam encarar a palavra "rodízio" com um pé atrás. Afinal, nesses lugares, a quantidade da comida tende a ser mais importante do que a qualidade. O caso da pizza, símbolo maior da gastronomia paulistana, inspira desconfiança ainda maior. Mas esta casa surpreende, com redondas de excelente qualidade, que vão desfilando seguidamente - para cessar o bombardeio, gire o sinal da mesa até a posição vermelha. As fatias são pequenas, para que se possam provar vários sabores. Não perca a de shiitake, a de camarão com catupiry e do chef (molho de tomate, mussarela, catupiry, parmesão, rodelas de tomate e alho). Preços por pessoa: R$25,90 (2ª-5ª) e R$28,90 (6ª-dom.). Av. José Maria Whitaker, 1785, Planalto Paulista.

SUJINHO. Prestando bons serviços à boemia paulistana desde 1921, é endereço certo para quem quer consumir quantidades cavalares de carne, sem cair numa churrascaria. O horário elástico - até as 5 da manhã, todos os dias - é herança do tempo em que a casa era conhecida como "Bar das Putas" (alcunha que lhe confere um ar "cult"). O carro-chefe é a bisteca bovina (R$24), que tem nada menos do que 700 gramas (difícil conseguir comer sozinho). Para acompanhar, guarnições old school como salada de repolho, cebola, polenta, mandioca e batata frita. Leve dinheiro ou cheque: a casa não aceita cartões. Rua da Consolação, 2078, Consolação.

LA TARTINE. Vizinho de porta do concorrido Mestiço (que já foi bem mais barato, diga-se de passagem), esse bistrozinho é fofo até não mais poder: um dos lugares mais aconchegantes da cidade, perfeito para uma noite de inverno. O menu é curto, com sugestões leves da cozinha francesa, como saladas, sanduíches gratinados e quiches (a de queijo de cabra é imperdível). Além disso, há sempre dois pratos do dia, entre opções clássicas como coq au vin, boeuf bourgignonne ou filé com molho de pimenta verde. Com preços amigos e poucas mesas, o lugar está sempre cheio - mas a espera, no bar do andar de cima, é agradável. Rua Fernando de Albuquerque, 267, Consolação.

LA TRATTORIA. Bixiga? Que nada! Quando o assunto é cantina italiana - daquelas bem tradicionais, com massas e molhos de todos os tipos, a preços justos - meu destino é sempre Pinheiros, onde desde 1978 funciona o La Trattoria. Em ambiente simples, com toalhas vermelhas e pôsteres nas paredes, tem cardápio extenso, com ótimos pratos gratinados, que chegam fumegantes à mesa. No almoço executivo, os preços são ainda menores - o parmegiana com linguini salva qualquer dia chato de trabalho. Do outro lado da rua, há outra cantina também tradicional, a Nello's, que não me agrada tanto quando esta. Rua Antônio Bicudo, 58, Pinheiros.

GOPALA MADHAVA. Muitos anos antes que a Rede Globo mostrasse a Índia na novela das oito, o antigo Gopala Prasada atraía todos os dias uma pequena multidão, que fazia fila para comer seus PFs indianos vegetarianos. Com o sucesso, o restaurante foi expandido para uma casa vizinha, mas as sócias se desentenderam e seguiram caminhos diferentes. A primeira casa virou Gopala Madhava e sua cozinha se manteve bem mais fiel ao sabor original do que a segunda, Gopala Hari. De segunda a sábado, são duas opções fixas, com sopa, salada, prato, suco e sobremesa, a R$ 18 (sábados, R$22). Mesmo quem não é muito natureba consegue se virar bem com o cardápio, que pode ser consultado aqui. Rua Antônio Carlos, 413, Consolação.

UNI no MASP. No subsolo do Museu de Arte de São Paulo, encontra-se um dos almoços com melhor relação custo-benefício da Avenida Paulista. Já falei sobre ele no blog, aqui. No bufê, que custa R$24,20 por pessoa (sábados, R$26), uma variada mesa de saladas, além de pratos quentes como cordeiro com molho de hortelã, sobrecoxa de frango em crosta de aveia e peixe saint-pierre com creme de pimenta rosa. Para fechar os trabalhos, a mesa de doces tem bolo trufado, morangos com chantilly e suspiros, além de um delicioso brigadeirão. Av. Paulista, 1578, Bela Vista.

LA FARINA. Este restaurante tradicional é uma das poucas opções gastronômicas que se mantiveram seguras quando o Centrão entrou em decadência. O ambiente, com sofás de couro, seria vintage se não fosse todo original. O ar antiquado se mantém no cardápio, com pratos como o filé à cubana, servidos em grandes travessas de metal, com os acompanhamentos ao lado. A cozinha se sai bem em várias direções: na feijoada, no strogonoff e em massas como o rigatoni à pasticciata, recheado de queijo e gratinado com cogumelos frescos e secos. As porções são grandes, então dá para dividir e gastar menos. Rua Aurora, 610, Centro.

DEVASSA. A cervejaria repetiu em sua primeira filial paulista o mesmo sucesso das unidades do Rio de Janeiro, com "bombação" na happy hour e cardápio bastante versátil, que vai além da cozinha de botequim. Há coisa de um mês atrás, saiu no Guia da Folha que o bufê de feijoada, servido aos sábados, tinha caído de R$34 para R$25,50 - e ainda dava direito a um desconto de 50% para o acompanhante. Uma pechincha - será que continua valendo? Al. Lorena, 1040, Jardins.

LA BUCA ROMANA. No meio do caminho entre cantina e restaurante, é uma boa pedida quando cada pessoa do grupo tem apetite para um tipo de comida diferente. Além das massas, bons pratos de carne, peixe e frango (gosto do pollo maraviglia: peito gratinado com creme de cebola, maionese e parmesão, mais fettuccine quatro queijos). Animados com o bom retorno da participação na Restaurant Week, o La Buca tornou permanentes os menus econômicos feitos para o evento, que continuam saindo a R$25 (almoço) e R$39 (jantar). Fora deles, os pratos do cardápio normal já foram bem mais em conta, mas ainda são honestos. Rua Oscar Freire, 2.117, e Top Center (Av. Paulista, 854).

GOA. Restaurantes naturais são baratos, mas o ambiente bicho-grilo e a apresentação dos pratos não costumam ser atraentes. Este (que se chamava Gaia) é uma exceção: lugar descolado e pratos bonitos, com opções veganas para os mais ortodoxos. Há o menu do dia, com 3 opções de prato, mais entrada, suco e sobremesa, por R$20,90, e a "opção verão", com prato e suco, por R$14,90. Entre as sugestões que se revezam, a feijoada e o hambúrguer vegetariano são hits. Depois de comer, desça as escadas para o agradável jardim de inverno, faça de conta que está com a barriga cheia e descanse em uma das simpáticas redes disponíveis. Rua Cônego Eugênio Leite, 1152, Pinheiros.

PEPITTO. Arrumadinho, com direito à luz de velas, dá a impressão de ser mais caro e refinado do que de fato é. É um dos tentáculos da rede Don Pepe di Napoli, que tem várias casas espalhadas pela região, e tem o mesmo sotaque italiano de seus irmãos. O melhor é investir nas massas e nos polpettones. Sem grandes pretensões, é um bom lugar para um jantar a dois, quando não se pode gastar muito, especialmente num bairro caro como Moema. Al. dos Arapanés, 1307, Moema.

SINHÁ. A muvuca na porta após as 12h denuncia: tem coisa boa e barata ali. A decoração rústica, com parede de tijolos e fogão à lenha, remete a uma casa de fazenda - assim como a fartura do bufê, que tem base brasileira, com pitadas de sofisticação. Assim, ao lado do feijão tropeiro e do nhoque de mandioquinha, você pode encontrar um frango com molho de mostarda ou uma pescada com redução de tangerina e pimenta. Da grelha, sai um suculento bife ancho argentino, que vai bem com as batatas fritas, sempre no ponto, ou o risoto do dia. As sobremesas são matadoras, especialmente o pudim de leite condensado. Custa R$23 (2ª-6ª) e R$30 (fds). Rua Antônio Bicudo, 25, Pinheiros.

PILICO E BIA. Pagar barato para comer macarrão ao sugo é fácil; difícil é economizar quando se quer comer camarão. Milagres não existem, mas uma opção honesta é o Pilico e Bia - uma casinha acanhada, muito simples, com parede de azulejos, escondida numa travessa da Eusébio Matoso, perto do Shopping Eldorado. Eu mesmo só conheço porque trabalho ali perto. Os próprios donos tocam o negócio e fazem ótimos bobós e moquecas, que podem ser de camarão, lagosta, lula ou polvo, além de outros peixes e petiscos de mar. Rua Diogo Moreira, 296.

Quinta-feira, Julho 02, 2009

Divã: reinventando a própria história

Não gosto de filmes com anões e elfos. Ou magos e bruxos. Ou galáxias distantes. Ou cachorros inteligentes. Ou machos-alfa que grunhem "uga buga" enquanto trocam tiros e sopapos e se esquivam de explosões, em seqüências de ação "cinematográficas". Ou desenhos animados que viram trilogias intermináveis. Eu gosto mesmo é de filmes que tratam de histórias humanas. Se eu puder me identificar com elas, então, melhor ainda. Por isso, adorei Divã, filme estrelado pela Lília Cabral - atriz que ganhou ainda mais o meu respeito, e passa a impressão de ser uma pessoa muito simpática na vida real.

Aí alguns podem dizer: "Putz, então você se identifica a história de uma balzaquiana que vê seu casamento degringolar, precisa dar um up na vida e vai fazer terapia?! Que coisa mais triste!" Que nada: Divã é um filme leve, "pra cima" e otimista. Tem momentos deliberadamente feitos para serem engraçados (a cena em que a protagonista Mercedes prova um baseado dentro do carro é antológica), mas o grande trunfo são as tiradas espirituosas do livro de Martha Medeiros, que ganharam mais força na tela. A adaptação foi muito fiel ao texto original, com pequenas atualizações. Em uma delas, por exemplo, Mercedes se joga num clube gay (aliás, só mesmo no cinema duas pessoas conseguem entrar juntas no banheiro da The Week sem que a segurança derrube a porta e faça um escândalo...)

O filme passa voando, da mesma forma que o livro, que você lê num só trago. É sempre inspirador ver histórias de gente que quebrou seus próprios paradigmas e ousou se reinventar, passando a viver uma vida mais solta e livre. A sociedade espera que as pessoas se aquietem depois de uma certa idade, mas nunca é tarde para repensar as escolhas, permitir-se experimentar outras coisas, outros parceiros, outras ondas. De certa forma, passei por algo parecido depois de ter sido atropelado, em 2006: aquele acidente em Copacabana foi o divisor de águas de uma vida nova, da qual o melhor exemplo é o curso de jornalismo que vou continuar fazendo ("você não vale nada, mas eu gosto de você!").

Terça-feira, Junho 30, 2009

A volta do pesadelo de Stonewall

Como muitos leitores gays deste blog devem saber, em 27 de junho de 1969 aconteceu em Nova York o episódio conhecido como Rebelião de Stonewall. Numa época em que a homossexualidade era clandestina, a polícia de Nova York vivia invadindo bares gays, sob o pretexto de checar a venda irregular de bebidas. Fregueses eram espancados, humilhados e até presos, enquanto o estabelecimento era extorquido. Naquela noite, a clientela do Stonewall Inn resolveu dar um basta, enfrentou os policiais, e a data entrou para a história, marcando simbolicamente o início da luta pelos direitos LGBT no mundo.

Quarenta anos depois, esse pesadelo é coisa do passado - pelo menos nos Estados Unidos, o país das liberdades individuais, certo? NOT!* No último fim de semana, justamente quando se comemorou o aniversário do lendário motim, a história se repetiu nos mínimos detalhes na terra do Tio Sam. Na madrugada de domingo, a polícia de Fort Worth, cidade que forma com Dallas uma grande área metropolitana no Texas, baixou no Rainbow Lounge, casa noturna que funcionava havia apenas uma semana. O motivo da blitz era combater a venda de bebidas para quem já estivesse "highly intoxicated". Mas a fiscalização seguiu métodos pouco ortodoxos.

Sem que tivessem esboçado qualquer tipo de resistência, os clientes foram insultados, brutalmente agredidos (um deles, Chad Gibson, está hospitalizado com traumatismo craniano) e vários foram levados em cana por conduta inapropriada. Testemunhas confirmam que as agressões eram injustificadas e dirigidas sobretudo aos clientes mais efeminados. A reação veio no próprio domingo. Cerca de 100 pessoas se reuniram no próprio bar, improvisaram faixas e cartazes e foram protestar em frente ao Fórum do Condado de Tarrant, cobrando satisfações das autoridades. A Polícia de Fort Worth soltou um comunicado à imprensa explicando que a operação visava a garantir a segurança de todos e prometendo apurar as acusações de abuso policial. A Human Rights Campaign, maior organização pró-direitos civis LGBT daquele país, já está acompanhando o caso.

Quem entende inglês pode ler textos aqui, aqui e aqui e ver os vídeos da CBS, CNN e do portal local DFW.com. Nenhum blog ou site em língua portuguesa noticiou o episódio até agora. Só estou a par de tudo porque tenho um grande amigo brasileiro que mora em Dallas. Como era de se esperar, todos por lá ficaram passados com a história - e mais ainda com a forma como as autoridades locais tentaram colocar panos quentes e abafar o caso. Esse é um filme que nós conhecemos muito bem...

(*) Esse não é um "NOT!" qualquer, é aquele "NOT!" sonoro que só ele sabe dizer.

Domingo, Junho 28, 2009

No dia do orgulho, nosso filho vem ao mundo!

Faz quase um mês que eu anunciei que iria escrever algo que chamei informalmente de "cartilha gay". Muitas têm sido as queixas contra a apatia generalizada que domina o nosso meio: alienado, egoísta, incapaz de fazer sua parte para que as conquistas sociais e políticas de que tanto precisamos efetivamente aconteçam. Essas críticas de fato procedem (embora elas não sejam aplicáveis somente aos gays, como eu já disse aqui), mas o simples fato de reclamar não basta e não resolve os problemas. Por isso, achei que não seria má ideia sugerir uma lista de atitudes viáveis e possíveis, para que a classe média gay - que é o público que lê meu blog, convive e se comunica comigo - se encorajasse a sair da inércia e percebesse que fazer algo pela causa LGBT não é tão chato e difícil como se pensa.

O entusiasmo com que minha iniciativa foi recebida mostrou que ela estava longe de ser redundante. Existem inúmeros grupos e ONGs atuando em diversas searas pelos nossos interesses, mas por algum motivo, eles não conseguem se comunicar com todos nós - seja pelo uso de fórmulas batidas e discursos pouco atraentes, seja pelo próprio desinteresse (ou mesmo preconceito) da classe média pelo seu trabalho. Nesse sentido, a "cartilha" serviria como um esforço paralelo, não competindo com a militância, mas somando forças com ela, tentando alcançar um público que ela não atinge. Afinal, o que importa é que mais pessoas se conscientizem de que os avanços tão sonhados são de responsabilidade de todos.

Eis que hoje, 28 de junho de 2009 - aniversário de 40 anos da Rebelião de Stonewall, pontapé inicial na luta pelos direitos LGBT em todo o mundo - a tal "cartilha" finalmente está no ar. Ela é o fruto de um trabalho conjunto, feito com muito carinho por mim e pelos demais blogueiros que abraçaram a ideia comigo: Cris, Gustavo, Isadora, Daniel e Jack. Foi um mês de dilemas, desafios e discussões, desde a escolha do visual [os dois logotipos finalistas ilustram este texto] até a maneira de abordar os temas mais sensíveis e polêmicos, que não poderiam deixar de ser tratados. Nesse período, aprendemos muito uns com os outros, não só pela experiência pessoal que cada um agregou à "cartilha", enriquecendo o produto final, mas pelo próprio fato de ter de pensar em grupo, conciliando ideias e vontades diversas, e colocando opiniões sem melindrar ou agredir os demais.

Ainda que nosso trabalho não tenha a pretensão de salvar o mundo ou catequizar as pessoas, temos a esperança de que ele causará um impacto social positivo em meio ao público a que ele se dirige. E isso nos enche de alegria e orgulho. Muitos alegam que a ideia de um "orgulho gay" é inadequada, porque não há razão para uma pessoa se orgulhar (ou se envergonhar) da própria orientação sexual. Concordo: ela é apenas um detalhe. Mas isso não significa que não tenhamos razões para estufar o peito. Gays ou não, temos que nos orgulhar daquilo que somos e também daquilo que fazemos pelas pessoas que nos cercam, ao cumprirmos nossa missão com honestidade. É exatamente essa a sensação que temos agora, ao dividir nosso trabalho com vocês. Confiram a "cartilha" aqui. E, se quiserem divulgá-la em suas páginas pessoais, os banners em três tamanhos estão aqui.

Sábado, Junho 27, 2009

Amores possíveis

Acabo de chegar de uma festa de casamento. Além da inevitável orgia gastronômica e da vergonha alheia na hora em que a galera coloca boás fosforecentes, antenas do Chapolim, chapelões ridículos e óculos escuros de "festa rave", e "bota pra quebrar" na pista, ao som de disco music do Amaury Jr. e poperô do Lasgo, essa experiência teve um gostinho especial. O noivo é filho de uma antiga vizinha nossa, que morou por muitos anos no mesmo prédio em que nasci e estou até hoje. Não éramos grudados como nossas mães, mas crescemos juntos, até que o apartamento ficou pequeno e eles foram embora.

Na festa também estavam vários outros caras que foram meus amigos de infância, gente com quem eu brinquei dos 7 aos 12 anos e até joguei futebol (!!!???), em uma época em que o playground era o mundo para mim. O reencontro foi doce. Depois de um rápido estranhamento inicial, logo quebramos o gelo e pude constatar que ainda havia um carinho recíproco, todos me queriam bem. Tinham crescido e eram homens feitos, com namoradas firmes a tiracolo, mergulhadas em vestidos cintilantes e enfeitadas pelas onipresentes chapinhas. Contei o que pude contar da minha vida, do atropelamento em Copacabana ao recomeço profissional, e também soube do rumo que cada um tinha tomado.

Por alguns instantes, pensei: como teria sido minha vida afetiva nos últimos dez anos, se eu fosse hétero como eles? Teria sido mais fácil para mim? Será que hoje eu seria mais feliz? Quais escolhas eu teria feito? Em geral, meus ex-coleguinhas estão mais bonitos do que eu poderia supor, sem dúvida estão "envelhecendo" muito bem. No entanto, nem todos ostentavam namoradas gatíssimas, lindíssimas, gostosérrimas - todas tinham seu brilho e suas imperfeições, e uma delas era indisfarçavelmente gordinha. Mas isso não parecia ter sido nenhum obstáculo para que ela e meu amigo se gostassem, se entendessem e decidissem selar a união - o casório está marcado para agosto próximo.

No fim das contas, concluí que, se eu não tivesse trocado a esfiha pelo kibe, provavelmente teria namorado muito mais do que namorei até hoje. Não por a sociedade ser preconceituosa e os gays terem que se esconder. Mas porque eu faria minhas escolhas afetivas com base em outros critérios, e talvez desse à aparência um peso muito menor - como o meu amigo que quer terminar seus dias ao lado da gordinha (que é gente boníssima). Como típico homem gay dos grandes centros urbanos, eu vivo perdido entre inúmeras idealizações, à espera do homem perfeito, que reúna todos os itens de um extenso checklist de predicados exteriores e interiores. Em meio a tantas exigências, ninguém é bom o bastante; a espera continua, e a vida passa. Se há alguém que precisa pular mais alto e agarrar o buquê da noiva com unhas e dentes, esse alguém definitivamente somos nós.

Terça-feira, Junho 23, 2009

A delícia de quebrar tabus e gozar como nunca

[Calma, queridos. Não vou fazer aqui nenhum post sórdido à la Uomini...] Já recomendei aqui a Papo de Homem, espécie de revista virtual dirigida a homens heterossexuais, mas que tem uma porção de textos que gays também podem achar bacanas. A maior parte do material é escrita por homens, mas alguns textos e colunas são assinados por mulheres. Semana passada, uma das colaboradoras escreveu um texto fantástico, em que dividiu com os leitores uma experiência sexual que para ela foi bastante intensa e libertadora. O que ela aprontou está resumido nesta frase: "Transei com dois amigos e rompi vários tabus ao mesmo tempo: transar com mais de um homem ao mesmo tempo, fazer sexo anal e DP [dupla penetração] e chorar durante o gozo".

O relato é mesmo inspirador: gostoso, corajoso, sem culpas ou amarras, como o bom sexo deve ser. A moça mostra total compreensão das regras e convenções sociais que estavam em jogo, mas pondera que confiava nos parceiros, não estava traindo ninguém e, afinal, teve a melhor experiência sexual de sua vida - o que só podia ser saudável e positivo, portanto. Mas vencer tabus nem sempre é tão fácil: há que se lidar com duas censuras, a própria e a dos outros. Enquanto vários dos comentários aplaudiam o texto, uma leitora jogou areia: "Por acaso vocês considerariam namorar uma garota depois disso? Muito bonito o discurso de liberação sexual, mas o mundo ainda não está preparado. Ainda existe muito machismo e preconceito sim! Não é só uma questão de pudores. O buraco é bem mais embaixo". Alguns leitores concordaram e teve quem chamasse a confidente de "vadia".

No meio gay, acontece a mesma coisa, só mudam as práticas. Para nós, ménage à trois não é nenhum crime: não é exatamente incomum ver três homens se pegando na pista da The Week, ou ouvir confidências de casais que levam um lanchinho para casa. Mas também temos nosso repertório de fantasias proibidas, desde a simples escolha de um parceiro bronco, rústico e que não é do nosso "nível" (o famoso "cafuçu"), até variados jogos de dominação e submissão, vestir lingeries e peças femininas, brincadeiras com urina, DP anal ou fisting. Muitos reprimem esses desejos, ou deixam para exercê-los com garotos de programa, de forma impune e livre de recriminações. Afinal, nosso mundinho é pequeno, as informações circulam rápido e o patrulhamento sobre a vida alheia é mesmo uma coisa. E o comentário da leitora - assumir certas posturas sexuais desqualifica você como possível namorado - também encontra eco por estas bandas (pois é, nós reproduzimos mais o moralismo heterossexual do que imaginamos).

Mas quem ousa pagar o preço de vencer os próprios pudores pode ter gloriosas recompensas: não só prazeres físicos inimagináveis, como também a chance de se conhecer melhor e descobrir muitas coisas novas sobre seu corpo, seu desejo e suas emoções. Sempre existe o risco de ser julgado, mas aprender a não depender da aprovação dos outros também é uma prova de maturidade. Poucos arrependimentos são piores do que reprimir um desejo na cama, por ter esperança de ver o cara novamente e medo de se queimar com ele e, mesmo assim, ele não te procurar mais e você perceber que desperdiçou sua chance. Como disse um leitor do post: "O negócio é buscar o prazer. Afinal de contas, não vamos sair dessa vida vivos mesmo".

Domingo, Junho 21, 2009

Não sabendo que era impossível, fomos lá e fizemos

Cheguei à Doceira Holandesa da Vieira de Carvalho na hora combinada para encontrar meus amigos, trinta minutos antes do início da manifestação. E não vi absolutamente ninguém. Já ia pensando nas palavras que despejaria no próximo post, dizendo que "o que essa bicharada merece é comer Doritos", quando começaram a chegar as primeiras pessoas. Tímidas, elas se encolhiam na porta da doceria ou do boteco vizinho, como se fossem clientes daqueles estabelecimentos, disfarçando a verdadeira razão de estarem ali.

Repórteres começaram a filmar e fotografar e, como ainda não havia quase ninguém, minha presença foi registrada várias vezes. Não pensei em fugir ou me esconder, mas confesso que me senti desconfortável, meio sem saber onde colocar a mão. Mais uma vez, entendi por que é preciso respeitar as pessoas que não se sentem atraídas ou dispostas para a militância. Não querer se expor é um direito delas e os patrulheiros mais radicais deveriam respeitar isso. Aliás, foi pensando nessas pessoas, que não se interessam pelo movimento mas também gostariam de ser úteis, que resolvi fazer a tal cartilha ("cartilha" é apenas um jeito informal de se referir a ela, já que a ideia não é ditar regras a ninguém), que irá ao ar nesta semana.

Em questão de quinze minutos, o número de pessoas se multiplicou. O povo foi chegando, vários amigos deram as caras, gente conhecida do meio também. Algumas lideranças assumiram o microfone (inclusive o Secretário de Justiça Luiz Antônio Marrey, enviado pelo governador), e gostei de ver que os discursos não faziam exaltação a vaidades pessoais, nem tentavam vender o peixe de grupos. Sempre fui contra esse cruzamento promíscuo entre militância e interesses partidários: acho que a militância deveria estar comprometida com as nossas demandas e interesses, e não servir de alavanca para capitalizar visibilidade e votos para esse ou aquele partido. E não sou o único que pensa assim: muitos ficaram incomodados quando membros de certos partidos tomaram a frente da passeata com suas grandes bandeiras vermelhas, tentando apropriar-se da iniciativa. Felizmente, outros perceberam a jogada e fizeram com que as faixas caseiras de pessoas comuns contra a homofobia assumissem a dianteira da marcha, que foi até o Arouche.

Sem outras manifestações de rua no currículo, eu não sabia bem o que esperar, mas fiquei satisfeito com o resultado. O ato conseguiu reunir umas boas 300 pessoas. Os organizadores falaram em 500, acho que não foram tantas assim, mas o número não é o mais importante. Quando aquela pequena massa humana começou a caminhar, soprar apitos e gritar "contra a homofobia, a luta é todo dia!", fui tomado por uma sensação gostosa de união, de identificação acima de todas diferenças, e por um sincero otimismo. Não foi nenhuma falsa afetação pós-Milk, superficial e passageira, mas sim a constatação de que não é tão difícil assim dar uma forcinha e mostrar um pouco de solidariedade por uma causa que deveria ser de todos nós.
[Gustavo, Cris, eu e Isa, autores da "cartilha" junto com Jack e Daniel]

Sexta-feira, Junho 19, 2009

Diploma... que diferença?

O assunto da hora em algumas das rodas que eu freqüento é o fim da exigência de diploma para exercício da profissão de jornalista no Brasil, por conta de uma decisão proferida anteontem pelo Supremo Tribunal Federal, em Brasília. No Twitter, não se fala em outra coisa. Mesmo fora dessas rodas, vários amigos meus vieram me abordar no MSN, pra saber se eu estava muito puto (afinal, estou pagando meu curso, a duras penas, por quase três anos) e se eu iria largar a faculdade, já que "agora não precisa mais ter diploma mesmo".

Eu nunca achei que o curso de jornalismo fosse indispensável. Também não é o caso de dizer que "ele não serve para nada", o que seria um despautério, mas tenho plena consciência do motivo pelo qual fiz o curso: furar o cerco do protecionismo instalado no mercado, e conseguir meu lugar ao sol. Foi para isso que já gastei o valor de um carro novo (e continuo andando de ônibus). Não nasci sabendo: é óbvio que eu não poderia entrar em qualquer redação e sair arrasando, sem que me ensinassem nada. Existem, sim, conceitos, práticas e jargões do universo jornalístico com os quais pessoas de fora não são familiarizadas, e que precisam ser aprendidos. Mas imagino que, na prática, em seis meses de trabalho, eu já teria assimilado uma boa parte deles.

Verdade seja dita, a formação em jornalismo não é exatamente das mais sólidas. É um curso que, em três anos e meio (descontando a preparação do TCC), precisa aliar o tal arcabouço teórico e prático "de jornalismo mesmo" com uma formação humanística mínima. E o que dá tempo de ver é mínimo: borrifadas de cultura geral, respingos de antropologia e sociologia, pílulas de economia e política, e por aí vai. O resultado é uma formação bem mais superficial do que a de quem cursou, por exemplo, Direito ou Ciências Sociais. No fundo, o que o profissional vai saber mesmo é dos assuntos sobre os quais ele terá que escrever no veículo em que estiver trabalhando (ops, esqueci que emprego fixo é uma noção do século passado, foi mal aê). É na hora de colocar a mão na massa que ele vai passar a manjar de carros, investimentos ou, sei lá, plantas ornamentais. As lacunas, ele suprirá conforme a necessidade, lendo livros ou fazendo cursos pontuais e dirigidos. Afinal, a busca por informação, formação e atualização deve ser constante - como em qualquer outra profissão.

O que faz um bom jornalista, definitivamente, não é o curso de jornalismo. São os jornais, livros e revistas que ele leu, os filmes e peças de teatro que ele viu, as viagens que ele fez, as pessoas que ele conheceu. É a bagagem de vida que ele acumulou e a cultura geral que ele absorveu - por conta própria, desde cedo, não apenas a vinculada ao curso universitário. É esse estofo de conhecimentos, referências e informações que permitirá a ele entender o mundo em que vive, o lugar que ocupa nele e, de quebra, escrever para os outros com propriedade. Isso e, é claro, o dom da boa escrita - uma habilidade que algumas pessoas sem diploma possuem, enquanto outras diplomadas em jornalismo simplesmente não têm.

Isso não quer dizer, como eu já ressalvei no segundo parágrafo, que o curso de jornalismo seja de uma completa inutilidade. A formação básica é pobre? Sim, mas ela é apenas a porta de entrada para que cada um, seguindo seus interesses e curiosidades, escolha em que seara irá se aprofundar. Faculdade nenhuma é suficiente. Mas, acima disso, o que considero fundamental no curso é a oportunidade de reflexão. De pensar o jornalismo de forma crítica, de ver o que existe por trás da notícia, de descobrir as implicações e limites éticos da profissão - de aprender, enfim, que a atividade profissional do jornalista é imbuída de uma grande responsabilidade social e tem conseqüências. E trazer isso consigo em todas as escolhas pessoais futuras. Quem tem facilidade para escrever, tem um blog e tal, pode produzir textos redondos e até preencher algumas vagas com competência, mas não terá vivido, refletido e crescido com essas discussões, que acontecem dentro da faculdade.

No frigir dos ovos, não sei se o fim da obrigatoriedade do diploma vai mudar tanta coisa assim. O mercado de jornalismo está saturado, paga mal e não absorve toda a oferta (tanto que essa é uma das profissões mais largadas pelas pessoas, que precisam se virar fazendo outras coisas). Veículos que já empregam pessoas sem diploma terão mais tranqüilidade, ao saber que não precisarão mais escondê-las da fiscalização. Mas os peixes grandes da história - Abril, Folha, Estadão, Globo - provavelmente vão continuar usando esse filtro, entre outros tantos de que eles precisam lançar mão para escolher entre milhares de candidatos. Diploma pode não ser requisito, mas ainda servirá como diferencial, porque ele permite supor que você teve um mínimo de preparação (embora você precise provar, do mesmo jeito, que sabe escrever, é bem informado etc.). E outra: sem diploma, você dá a eles um pretexto a mais para oferecerem salários ainda mais baixos. Por essas e outras, vou desembolsar o valor de mais um carro, e resistir ao impulso de me atirar da ponte mais próxima.

Quarta-feira, Junho 17, 2009

Tempos bicudos

Depois do baixo astral do post anterior (que não foi exclusivo deste blog, a julgar pela ampla repercussão dos problemas da Parada, no mundo real e no virtual), eu pensei que poderia escrever algo com um tom mais alegre. Mas eis que fui surpreendido por notícias ainda mais tristes. Um dos vários homossexuais que foram atacados nas imediações da Parada Gay acaba de falecer, conforme divulgou a Santa Casa. Marcelo Campos Barros tinha 35 anos e sofreu traumatismo craniano após ser barbaramente linchado por um grupo de skinheads na rua Araújo.

O outro episódio felizmente não resultou em morte, mas foi ainda mais absurdo: não aconteceu na rua, mas dentro de uma casa noturna - onde, supostamente, todos nós estamos a salvo da barbárie e protegidos pela segurança do estabelecimento. Na madrugada desta segunda, Celso Neto, 44, estava no camarote da Cantho, no Largo do Arouche, quando foi cercado e espancado por outros cinco freqüentadores da boate. Levou cabeçadas no rosto, foi jogado no chão, chutado incontáveis vezes pelo corpo e na cabeça, perdeu quatro dentes e teve o nariz quebrado. Se os pontapés na cabeça tivessem sido mais sérios, ele provavelmente teria morrido ali mesmo, já que permaneceu no chão do clube por quarenta minutos sem receber qualquer tipo de assistência. Os agressores deixaram o recinto normalmente, sem que fossem incomodados. E a segurança da casa? Nada soube e nada viu. (E a casa não teve a pachorra de tirar dinheiro do bolso de Celso para quitar a comanda? Boicote neles!)

Os dois crimes aconteceram em circunstâncias diferentes, mas por motivos igualmente fúteis. Marcelo foi exterminado pelo simples fato de ser gay e andar na rua. Celso esbarrou sem querer em uma travesti, pediu desculpas a ela, mas isso não foi suficiente para evitar que fosse espancado pelos marginais que a acompanhavam. Tudo isso mostra o quanto estamos expostos à violência, mesmo dentro da redoma imaginária em que nos colocamos. Se, no segundo caso, existe um responsável fácil de identificar (o clube, que tem o dever de zelar pela integridade física dos clientes dentro de suas dependências), no primeiro a culpa se dilui: é o poder público que não dá conta de promover policiamento suficiente, são os grupos homofóbicos que semeiam o ódio e a intolerância, são os evangélicos que barram o PLC 122 no Congresso, é o "Brasil inteiro" que "está violento", e por aí vai. Estamos mesmo num mato sem cachorro. Só nos resta pedir ajuda ao anjo da guarda, ou talvez a São Sebastião.

Vale lembrar que há pelo menos outras três pessoas que permanecem internadas em estado grave depois de terem sido agredidas nas imediações da Parada. Mas o mais surreal de tudo foi ler, em um dos vários blogs que noticiaram essas desgraças, o comentário de um homem gay (!) que tentou minimizar a gravidade dos fatos, alegando que "estatisticamente, estes incidentes são insignificantes". Dá para acreditar numa coisa dessas? Não vou nem comentar.

Se, ao contrário do cavalheiro, você não acha que esses episódios são "insignificantes", mostre ao mundo sua opinião: apareça no protesto contra os ataques homofóbicos que a APOGLBT está organizando neste sábado (20/6), às 19h, na Praça da República. Não vivemos dizendo que a Parada perdeu o sentido político? Taí uma boa chance de tentar recuperá-lo.

Terça-feira, Junho 16, 2009

Ainda bem que não temos só a Parada

Todo ano, quando os caminhões lavam a Avenida Paulista depois da Parada, varrendo os últimos vestígios de um feriado sempre alegre e intenso, anunciando o fim da temporada festiva e a volta ao mundo real, eu me vejo tomado por uma certa melancolia. Os turistas que visitam a cidade nos contagiam com sua euforia, seu deslumbramento, e nós, os donos da casa, acabamos ficando tão enfeitiçados quanto eles. É como se, por alguns dias, vivêssemos num universo paralelo, onde a confraternização acontece em cada esquina, a vida é cor-de-rosa, não existem problemas, todos querem conhecer gente nova, e aproveita-se cada minuto. Quando o oba-oba acaba, também ficamos meio jururus. Nós temos toda a estrutura de lazer de São Paulo ao nosso inteiro dispor o ano inteiro, mas ela fica menos divertida sem o frescor e o entusiasmo da turistada.

Desta vez, porém, minha experiência pessoal foi um pouco diferente. Por diversos motivos, neste ano não pude flanar pelas ruas e sentir essa vibração gostosa emanando da cidade. Também não mergulhei de cabeça nas festas, como de costume. Tive que reduzir muito o meu envolvimento com tudo e, se não aproveitei tanto, também não senti a tal melancolia do pós-tudo. Aliás, para mim foi um feriado que passou voando. Hoje, provavelmente estou bem mais inteiro do que os meus amigos. De qualquer forma, deixo aqui algumas impressões, satisfazendo a curiosidade dos que acessam este blog em busca de novidades.

Em relação às festas, a única que eu vi com meus próprios olhos foi a GiraSol, como já adiantei no post anterior. Voltei para casa bastante satisfeito, embora tenha achado que ela não repetiu a magia do ano passado (não tem jeito: por mais que se mantenha a mesma receita, cada edição acaba sendo única). Conversei com muita gente, para ter uma ideia geral das festas e saber o que eu estava perdendo. Não teve tempo ruim: todo mundo gostou de tudo, da decoração da Daslu à pegação do Pacha, passando pelas festas na The Week - especialmente o som de quarta e a jogação prolongada do sábado. Meu amigo Thales de Brasília comentou que, em relação aos outros anos, as festas estavam menos superlotadas e o povo estava bem mais bonito - o que me pareceu uma constatação bastante positiva. Mesmo com a tal crise (as produções foram mais modestas e os preços dos ingressos estiveram bem realistas), as festas rolaram superbem. E outros públicos também foram bem servidos: havia muito mais opções de festas para meninas e ursos do que nos anos anteriores.

Já a Parada em si... sempre fiz a maior campanha para as pessoas prestigiarem, mas está ficando cada vez mais difícil defendê-la. Sobre os diversos comentários elogiosos, como o do Tony, que exaltou o caráter inclusivo do evento, o espaço para "os excluídos do meio gay" tornarem-se os donos do pedaço por um dia e serem felizes, eu concordo com todos. Mas também não vejo nenhuma novidade neles. A Parada sempre foi democrática, esta é a sua essência, e isso nunca foi problema, pelo menos não para mim. Não sou desses elitistas que reclamam que "só dá gente feia e pobre"; eu mais do que simpatizo com a mistura entre diferentes tribos e classes, tanto é que continuo batendo cartão na Feira Cultural, um evento 110% periferia. De verdade, acho fantástico que todos, "incluídos" e "excluídos", tenham espaço e liberdade para ser o que quiserem e se divertir como bem entenderem, e penso que parte da beleza da Parada está justamente aí, na pluralidade. Mas não é essa a questão.

A questão é que a nossa Parada Gay deixou de ser nossa. Ao se tornar um evento de massa de proporções gigantescas, com o chamariz da sexualidade hiperexposta, ela foi invadida e apropriada por visitantes da pior qualidade. Não por serem héteros: ao invés de combater preconceito com preconceito, precisamos deixar os héteros se aproximarem de nós, se realmente queremos que eles nos aceitem. Mas por serem verdadeiros aborígenes selvagens. Gente que certamente não estava lá para nos apoiar, mas sim para protagonizar cenas dantescas de violência e vandalismo, estragando a festa e colocando em risco a segurança de todos. Escapei de confusões, brigas e furtos várias vezes. Vi pessoas chorando, sabe-se lá se tinham apanhado ou sido roubadas. Encontrei amigos em estado de choque, porque tinham visto um homem ser derrubado com uma marretada (!) na cabeça. E depois ainda soube dos espancamentos de gays nas redondezas e da bomba jogada na Vieira. De uns dois anos para cá, a Parada tem ficado cada vez longe da festa amistosa que já foi um dia. Não é à toa que cada vez mais gays deixam de comparecer. A barra pesou.

O pior é que esses intrusos roubaram o nosso evento e estão acabando com ele, mas quem vai pagar o pato somos nós. São os gays que sairão arranhados perante a sociedade, com a pecha de vândalos e baderneiros, reforçada por toda a imprensa leiga. Uma imagem piorada por algumas pessoas praticamente peladas, fazendo coisas que dificilmente fariam no meio da rua se não estivessem fora de si (mal pude acreditar em cenas que vi ao redor do MASP). Não sou falso moralista, não gosto menos de putaria do que todos os outros, mas não consigo achar que esse é o recado que temos que passar para o resto da sociedade. Politicamente, para quem ainda está tentando se fazer ouvir e respeitar, isso é um completo desastre - e um prato cheio para nossos inimigos.

Não estou fazendo campanha contra o evento, não. Aliás, não é nada cômodo para mim fazer estas críticas, quando o que se espera de mim é justamente o contrário. Eu adorava a Parada, sempre achei uma mobilização lindíssima, insisti nela o quanto pude, mas agora estou seriamente tentado a não dar as caras na Paulista no ano que vem. Se for para continuar assim, não tenho mais vontade de repetir a dose. Posso tranqüilamente ficar em casa, ou mesmo fazer qualquer outra coisa, porque hoje entendo que, se a Parada nasceu como um gesto político, existem mil outras maneiras de cumprir com nosso dever cívico, algumas delas bem melhores do que essa. Do jeito que está, reduzida a uma micareta de quinta categoria, perigosa e esvaziada de um sentido maior, a Parada não agrega nada de bom à causa LGBT, nem agora e nem para o futuro. E ainda pode render muita dor de cabeça.

Domingo, Junho 14, 2009

Já já

Acabei não postando o roteiro de restaurantes bons & baratos. O guia já está todo rascunhado, serão 20 lugares recomendados, mas não tive tempo para desenvolver o texto dentro do padrão de qualidade do blog. Vou postá-lo em breve, na próxima semana, quando o assunto "parada" estiver superado. Afinal, esse tema não ficará velho tão cedo. Velho, aliás, estou eu, que cheguei da GiraSol exausto e nem tive forças para continuar a festa na The Week... mas foi na medida, e não tenho do que reclamar. Muita gente linda, muitos amigos, acho que acertei ao ter escolhido essa como única festa.

Quinta-feira, Junho 11, 2009

Pré-parada: preparada, bee?

Lá vamos nós para mais um feriado da Parada Gay em SP. Enquanto muitos sustentam a necessidade de repensar a Parada em si [eu ia fazer um post-cabeça a respeito, mas depois que dei aquela entrevista desisti; acho que minha opinião sobre a Parada já está bem registrada ali], outros tantos se empolgam com a bateria de festas e e a possibilidade de rever os amigos de fora, que deixam a cidade em polvorosa. Em anos anteriores, quando chegava esta época, eu começava a soltar vários posts recomendando festas e também points da cidade, na tentativa de dar uma força para os leitores que não são daqui.

Desta vez, concluí que era inútil colocar aqui minha agenda selecionada de festas. Afinal, quem realmente se interessa pelo assunto já fez sua programação pessoal há muito tempo [para quem não fez, o serviço completo está aqui, aqui e aqui]. Em resumo, a única novidade desta temporada 2009 é a festa VIP, no polêmico Terraço Daslu. A The Week continua sendo uma opção segura: previsível, mas que não costuma decepcionar. Da programação da Flex, que aprendeu a seguir seu próprio caminho, o que chama a atenção é a megafesta no Espaço das Américas, na sexta. Bubu, Ultradiesel, SoGo, Blue Space e Cantho correm por fora, como nos outros anos. E os novos bares bacanas devem encher de turistas que não vêm sempre para cá e querem conhecer as novidades.

Na Parada em si, com os clubes fora do jogo, o trio elétrico mais bombado deve ser o do site Disponivel. A novidade deste ano é o camarote que o Mix Brasil está comercializando, a R$ 250 por cabeça, para quem quiser participar (?) da "maior parada do mundo" com "conforto e segurança" (é "exclu", eles dizem). Confesso que achei engraçado o Mix primeiro detonar a Parada (o diretor de conteúdo do site escreveu em seu blog pessoal que achava o evento "um desserviço à comunidade gay real") e logo depois tratar de faturar uma boa grana em cima dela, mas a vida é assim mesmo, né. Quem não quiser morrer nos R$250 pode pagar R$15 e assistir ao espetáculo a partir de um mirante dentro do Mix Markt, reedição do Mercado Mundo Mix que vai acontecer sábado e domingo, num estacionamento ali na Paulista, e promete ser bem bacana (vou prestigiar meu amigão Rique, estilista da R.Groove, que estará participando).

Não saí completamente do meu resguardo e não poderei me jogar com a força do ano passado. Mas farei questão de prestigiar dois eventos diurnos: a Feira Cultural, que é sempre divertida, e a day party GiraSol, no sábado, que ano após ano vem sendo a melhor festa. O probleminha é que o sucesso dela depende muito do tempo estar bom - e o prognóstico do Climatempo não é nada animador. Por isso, turistada: tragam bons agasalhos, sendo pelo menos um deles apropriado para andar na chuva (nylon, tecido impermeável ou, no mínimo, um capuz dando o truque). De resto, deixo aqui minhas dicas do que fazer em São Paulo, bem como meus conselhos de mãe - ambos foram feitos para a Parada de 2007, mas continuam bem atuais. Para não dizer que não dei nenhuma dica nova, meu próximo post (no ar amanhã) será sobre restaurantes. Ao invés de repetir os lugares óbvios dos outros guias (Mestiço, Spot, Ritz), vou fazer um roteiro só com lugares bons & baratos [aqui]. Assim, só come na praça de alimentação do Shopping Frei Caneca quem quiser. Aproveitem o feriado com responsabilidade e nos vemos por aí.

Quarta-feira, Junho 10, 2009

Um parto prematuro (e desastrado)

No ano passado, a revista DOM foi às bancas às vésperas da Parada Gay com um guia de bolso, o Kit Parada DOM, feito por mim e por Marcos Costa, com a agenda das melhores festas, endereços de comes, bebes e pegações, e mais uma porção de dicas úteis para as pessoas aproveitarem. Neste ano, a Junior resolveu copiar a ideia: quem comprar a edição número 11, lançada ontem, leva de brinde um guia para a Parada. Assim que li a notícia no Mix Brasil, portal de notícias do grupo que edita a revista, fui garantir meu exemplar na banca - como, aliás, fiz com todas as demais edições, desde que a revista foi lançada (ok, minto: o número 10 eu ganhei de presente).

A essa altura do campeonato, já assimilei bem a proposta de cada uma das revistas gays do mercado, suas virtudes e suas limitações. Por isso, sei bem o que esperar de cada uma delas quando entrego o dinheiro ao jornaleiro. Acho que o Brasil hoje tem potencial e espaço para ter uma boa imprensa gay, existe uma abertura e também uma demanda por isso, pelo menos nos grandes centros. É tudo questão de formar um mercado consumidor, e também de reunir boas cabeças: gente culta e preparada, que saiba o que é uma revista e o que está fazendo ali. Ainda estamos verdes, falta ousadia e um bocado de substância, mas quero acreditar que dá para chegar lá. Enquanto espero, faço questão de continuar comprando, ajudando e prestigiando: solidariedade LGBT é isso aí. Mesmo assim, com toda a condescendência possível, com toda a vontade de gostar de tudo o que eu leio, fiquei decepcionado com o tal Guia Junior.

Não vou falar dos erros de português (especialmente concordância) que sempre aparecem na revista, porque hoje entendo que o leitor médio da Junior nem consegue perceber essas coisas, portanto não se incomoda. Mas dessa vez as derrapadas foram menos sutis: o Guia tem pérolas como "comindinhas", "brincandeira", "instrasitável", "logevidade", "pool pary", "eletrõnica", "doungeun", "enderçeo", "qunado", "nortuna". Desculpem, queridos, mas revista não pode ter esse tipo de coisa. Pô, eles têm pelo menos um jornalista que sabe escrever, que é o Hélio Filho. Se não dava pra colocarem o fofo escrevendo a revista inteira, custava terem contratado um revisor? Na pior das hipóteses, usar o corretor do Word já pouparia uma parte dos micos.

A outra parte dos micos também seria evitada com revisão, essa palavrinha que faz parte da rotina de qualquer veículo jornalístico profissional. Dos quatro hotéis indicados, três saíram com o mesmo endereço - que não é o correto de nenhum deles, e sim o do bar Farol Madalena! Será que vai chegar muita gente no bar das meninas pedindo um lugar para dormir? Com a sauna Wild, foi pior: saiu com o endereço da SoGo (que aparece logo antes) e ainda com o telefone "00 0000-0000". Pega mal, fofitos. Como é que os turistas poderão confiar em um guia em que todas as indicações podem ter sido coladas no lugar errado?

Isso sem falar na seção de festas da parada, que tem cara de coito interrompido. Eles dão quatro indicações de festas na quarta, quando muita gente ainda nem chegou em SP, e apenas uma no sábado, justamente o dia mais bombado?! A GiraSol pode até ser a favorita de muitos, mas claro que tem muito mais coisa rolando na cidade. Não adianta dizerem "você que não viu no título que eram festas off-clube", porque todas as festas listadas na quarta são dentro dos clubes. Fica parecendo que aconteceu alguma coisa no meio do caminho (ou entrou um anúncio na página seguinte e o espaço encolheu, ou acabou o prazo para fechar) e eles simplesmente decidiram interromper a seção onde estavam, e tchau. Nem se deram ao trabalho de remanejar as festas para deixar a coluna equilibrada.

Enfim, a impressão que fica é de um trabalho feito nas coxas, às pressas e sem o menor cuidado. O leitor está pagando para ler um material inacabado, cheio de falhas, que nem sequer foi conferido! Isso é mais do que amadorismo: é desleixo puro, descaso mesmo. É algo que depõe totalmente contra - para fazer desse jeito, seria melhor não ter feito o guia. Depois dessa, fiquei até com medo de abrir a revista. O que mais será que eu posso encontrar lá dentro?

Antes que comecem a encher meus comentários com chochos e bobagens, já vou logo dizendo que não fiz este post por despeito, inveja, mágoa-de-cabocla ou qualquer coisa do tipo. Também não é gongo maldoso de quem joga no time concorrente. Escrevo estas palavras não na qualidade de colaborador da DOM, mas sim como leitor da Junior. Como um consumidor que quer que a revista melhore e valha o dinheiro, antes que ele perca a paciência e desista dela. São críticas construtivas, que estou dando a eles de presente, de lambuja - e nem sei se eles merecem, pelo tanto que são pretensiosos, arrotando caviar nos editoriais como se fossem protagonistas de uma nova revolução cultural. Se admiram tanto a Têtu, como vivem dizendo por aí, deveriam aprender mais com ela e se tornar menos amadores (e mais humildes). E com isso, certamente me ajudarão a continuar comprando a revista. Enquanto isso, o post vale como conselho para meus leitores: se for só pelo Guia Junior, economizem o dinheiro da revista e confiram o mesmo material, de graça, nas matérias no Mix Brasil. Pelo menos no site eles ainda têm a chance de corrigir as coisas que escrevem errado...

Terça-feira, Junho 09, 2009

Tanques de guerra


Para dar uma espairecida depois da seriedade dos últimos posts, deixo pra vocês um videozinho bem frívolo, afinal também sou filho de Deus e não sou obrigado. A pedido da editora de moda Lilian Pacce, a modelo Carol Francischini "invadiu" o camarim do último desfile da grife de sungas Butch e mostrou os tanquinhos impossíveis dos supermodelos. Entre outras beldades, os rasgadíssimos Rodrigo Calazans e Alex Schultz fazem a linha "Sempre Livre SECA & SEGURA" e mostram que estão muito bem preparados para a guerra. Meu eterno príncipe encantado, Ramirez Allender, também aparece bem rapidinho. Via Made in Brazil.

Segunda-feira, Junho 08, 2009

Entrevista para o site A Capa

A "cartilha gay" que estou produzindo com outros cinco blogueiros chamou a atenção do site A Capa e eles pediram que eu lhes desse uma entrevista, que foi publicada hoje. Para os que se interessarem, estou disponibilizando aqui a íntegra do material que eu mandei para o site, sem edição.

Fale um pouco de você. Sou paulistano, tenho 31 anos, sou advogado e estou fazendo jornalismo. Escrevo o blog “Textos, Contextos e Pretextos de Introspective”, onde falo sobre comportamento, gastronomia, noite, viagens, cultura, universo gay, enfim, assuntos que me interessam ou chamam a minha atenção, coisas que fazem parte da minha vida. Também sou colaborador da revista DOM.

Gostaria que você explicasse ao nosso leitor a ideia da cartilha. Quando se pensa nas conquistas sociais e políticas que ainda faltam aos gays, muita gente não se vê como parte da solução. As pessoas se habituaram a culpar “os outros”, a dizer que ninguém faz nada, mas elas mesmas não tiram a bunda da cadeira. Alguns são realmente comodistas, mas tem gente bem-intencionada que até gostaria de fazer algo, e não sabe por onde começar. São pessoas que nunca se interessaram pelo movimento LGBT e não pretendem se aproximar dele. A ideia da cartilha é mostrar o caminho das pedras para que essas pessoas, sozinhas, tomem atitudes úteis, construtivas, que tenham efeitos sociais positivos, e ajudem a melhorar a nossa situação. É uma iniciativa independente, feita por seis blogueiros, desvinculada de interesses de grupos ou partidos, e que não concorre ou compete com o trabalho da militância. Não sou o dono da verdade, nem tenho a pretensão de ditar regras para ninguém. Estou apenas fazendo algo para somar, aproveitando essa visibilidade dos blogs para provocar uma discussão saudável, que estimule outras pessoas a sair da inércia.

Pode adiantar algumas ideias da cartilha? São sugestões de pequenas atitudes que possam ser adotadas e incorporadas ao cotidiano. Ideias realistas, viáveis, que saiam do papel. A intenção é que as pessoas percebam que podem fazer a diferença, que isso está ao alcance delas, e se sintam encorajadas. Tem posturas essencialmente pessoais, ligadas à autoestima, às relações com a família e os amigos, à busca por informação, ao consumo consciente, e outras que, mesmo sendo individuais, envolvem algum tipo de participação social, como o trabalho voluntário, a colaboração com ONGs ou mesmo o contato com parlamentares. Nem todos os itens servirão para todos. Cada um vai absorver o que achar que dá, o que está dentro de sua realidade.

Você acompanha o trabalho da militância? Já foi a algum encontro de algum grupo? Você participou da Conferência GLBT (à época) Municipal e Estadual de São Paulo? Qual a sua opinião sobre o Fórum Paulista LGBT? Como você classifica a perseguição que a senadora Fátima Cleide (PT-RO) está sofrendo? Acompanho o trabalho da militância lendo as notícias relacionadas, quando são publicadas na Folha de S. Paulo e nos portais Mix Brasil, A Capa e Parou Tudo. Nunca fui a reuniões de grupos ativistas, nem aos eventos que você citou, e não estou a par do episódio envolvendo a relatora do PLC 122. Minha vida é outra. Contudo, isso não me descredencia ou desqualifica para produzir uma cartilha. Os cidadãos comuns têm todo o direito de se mobilizar para mostrarem o que pensam e protegerem uns aos outros, sem necessariamente aderirem a grupos ativistas. Quero mostrar com a cartilha que não é preciso se filiar a um grupo ou frequentar eventos para fazer o que está ao alcance de cada um.

O meio gay é alienado politicamente? A classe média gay é tão politizada ou despolitizada quanto a classe média hétero. Não somos mais alienados porque consumimos moda, cuidamos do corpo ou tiramos a camisa na boate. Essa associação automática do universo gay com a futilidade é perigosa. Observo que no meio que frequento existe sim uma apatia, um individualismo. Muitas pessoas realmente não estão nem aí para nada. Mas outras se importam e ficariam felizes em ajudar a causa, e foi para elas que resolvi bolar a cartilha. Esse individualismo e falta de participação não são exclusividade do meio gay, são parte da mentalidade contemporânea, têm a ver com um processo de esvaziamento do debate político a partir do regime militar, enfim, têm uma série de explicações que nada têm a ver com sexualidade. Sexualidade é algo mais básico e simples do que isso.

Como a militância poderia atrair mais pessoas? Não sou a pessoa mais indicada para responder a essa pergunta. É a militância que precisa encontrar suas fórmulas. Talvez seja o caso de mudar o discurso, buscar um repertório novo, uma linguagem mais palatável a quem está de fora.

Na sua opinião, qual partido político está mais próximo da comunidade gay? Como não acompanho de perto as atividades de cada partido, não quero correr o risco de ser injusto. Sei que boa parte deles, não só os de extrema esquerda como também PT e PSDB, tem subgrupos ligados à diversidade sexual. Mas eu, que estou fora do jogo político, não enxergo nenhum partido como realmente próximo da comunidade gay.

Você frequenta a parada gay? Vou todo ano há uns oito ou nove anos, nem lembro mais qual foi minha primeira. Ainda não desisti dela, mas não sei dizer por quanto tempo vou continuar. Só insisto porque acho que, se ela está desvirtuada, não é abandonando o barco que alguma coisa vai mudar. Em entrevista ao site Parou Tudo, o diretor-geral Manoel Zanini disse que acha que o peso político da Parada é muito maior hoje, com os tais três milhões. Eu já penso o contrário: não acho que a quantidade de gente na rua soma ao movimento, ela até o enfraquece. O recado político do “vejam como somos muitos” foi dado quando atingimos o primeiro milhão, nós realmente causamos impacto, mas a sociedade já absorveu a mensagem e isso não faz mais tanta diferença. “Dançar, cantar e celebrar” não é protesto. O lado lúdico é necessário, mas não basta, não leva a conquistas nem provoca uma mudança de mentalidade. Não sei qual a saída. Talvez deixar o trecho da Paulista para a militância discursar, abrir espaço para protestos e reivindicações, e ligar a música dos carros ao dobrar a Consolação, deixando a festa rolar a partir daí. Seria menos jogação, o povo da bagunça grátis acharia chato, viria menos gente? Tudo bem, não é do volume desse povo que a Parada precisa hoje. E festa, os clubes fazem muito melhor.

Você acredita em ações coletivas? Acredito que, em algumas situações muito específicas, a classe média em geral é capaz de se indignar, se mobilizar e pensar coletivamente. Mas, quando o assunto são as questões LGBT, sou meio cético. Acho muito difícil querer provocar uma convergência de vontades em um grupo que é tão diverso e plural, e também tão desunido, que tem mil preconceitos entre si. Quando eu escrevi que “a esperança não está nas atitudes coletivas, e sim nas individuais”, quis dizer que não dá para a gente ficar esperando uma união que pode simplesmente não acontecer. Por isso, defendo ações individuais, ao estilo “faça você mesmo”. Que podem se multiplicar e acabar tendo um efeito coletivo. Mas cada um por si, sem prestar contas e nem depender de ninguém. É importante que cada um se sinta impelido a ter sua própria iniciativa, ao invés de ficar esperando eternamente pelos outros.

E sobre a mídia gay, ela ajuda a despolitizar a comunidade gay? Qual a sua opinião a respeito? Não podemos fazer dela culpada. O problema é anterior. Se a “comunidade gay” é despolitizada, não é por causa da mídia gay, mas porque não lê jornal mesmo, da mesma forma que muitos segmentos héteros também não. É um erro pensar que basta ler os sites e revistas gays para estar suficientemente informado, quem pensa assim não enxerga muito longe. A consciência social e política, o senso cívico, isso tudo vem de outro lugar, vem da criação e dos hábitos de cada um, e ninguém vai desenvolver lendo o Mix ou ACapa, por mais politizados que eles queiram ser. O papel da mídia gay, enquanto mídia especializada, é cobrir as especificidades de seu universo. Política entra na mistura, sem dúvida, mas é só um dos assuntos a serem tratados. E tem que ser dosado, até mesmo por questões comerciais, afinal só militância não vende revista, não dá audiência a site, nem nada. Comportamento, noite, consumo, identidade, moda, lazer, saúde, aconselhamento jurídico, sexo, fofocas, assuntos úteis e fúteis, tudo isso é de interesse do público gay e é perfeitamente legítimo que ele procure essa informação. Temos que aceitar que algumas pessoas se interessarão por política e outras não, sejam elas homo, bi ou heterossexuais.

Você é formado em Direito. Acredita que os cursos de advocacia preparam os futuros profissionais a lidarem com a questão da homoafetividade? Bem, só posso falar pela USP, que foi onde estudei. Eu me formei em 2001 e, naquele tempo, o curso de graduação em Direito não dizia uma só palavra sobre o assunto, não tratava dessas problemáticas não contempladas pela lei. A repercussão nacional das decisões proferidas pela desembargadora Maria Berenice Dias no Rio Grande do Sul é posterior a essa época, não sei como o curso está agora. Parece que existe um grupo que promove discussões extraclasse sobre questões ligadas à diversidade sexual, no pátio da faculdade, com gente de outras áreas. Mesmo entidades de apoio aos advogados, como a OAB e a AASP, começaram a dar cursos sobre o assunto muito recentemente, coisa de dois anos para cá. Mas um bom curso de Direito prepara o advogado para pensar o ordenamento jurídico como um todo e encontrar soluções para os problemas com base nas leis já existentes. Buscar o reconhecimento de uma sociedade de fato, por exemplo, foi uma saída criativa para contornar a inexistência de uma união estável homossexual, e assim conseguir dividir o patrimônio dos casais que se separavam.

O que você acha da lei 10.948? Foi um grande passo dado aqui em São Paulo. É importante esse reconhecimento formal, por parte do legislador, de que a diversidade sexual precisa ser respeitada, isso tem um caráter educativo para o resto da sociedade. E a imposição de uma pena pecuniária (multa) não deixa de garantir à lei uma certa efetividade. Mas para estancar a homofobia de verdade, só mesmo atribuindo a esse tipo de comportamento uma sanção penal, coisa que somente a esfera federal tem competência para fazer. Por isso, a aprovação do PLC 122 é tão importante.

Sexta-feira, Junho 05, 2009

Parada também é reflexão e discussão

A Parada Gay virou um carnaval fora de época, foi desvirtuada, não tem mais caráter político, está hiperlotada, perigosa e impraticável, blá blá blá? Até concordo com muitas das críticas que são feitas, e em breve vou dar meu pitaco sobre isso. O que talvez muita gente ainda não saiba (especialmente os que vêm de fora) é que a "Parada" não é apenas o desfile de trios elétricos na Avenida Paulista. Esse é apenas o ponto alto e mais visível de uma programação que acontece desde o início do mês - e, além de festa e jogação, também inclui eventos que dão oportunidade para a reflexão e a discussão sobre questões que são importantes para a nossa vida.

O Ciclo de Debates do 13º Mês do Orgulho LGBT começou anteontem e está discutindo, em vários espaços da cidade, os mais diversos temas de interesse da comunidade gay. Claro que há alguns assuntos mais áridos para quem não é da militância, mas também há debates sobre família, saúde, religião, psicologia, acesso à justiça, turismo e mídia gay. Ficou curioso? Então confira a extensa programação, que só termina em 19/6, aqui.

Quarta-feira, Junho 03, 2009

Europa vive onda de novos museus

Os amigos que gostam de arte e cultura têm muitas novas razões para investir em um giro pela Europa. Mesmo com a dita crise econômica global, o ano de 2009 está sendo marcado por uma enxurrada de novos museus por todo o continente. O portal do jornal francês Libération publicou uma matéria mostrando as novidades mais legais, como o Brandhorst (Munique), com trabalhos de grandes artistas do século 20, o Magritte (Bruxelas), dedicado ao pintor surrealista belga René Magritte, e o Hergé (Nouvain-la-Neuve, França), que mostra a obra do cartunista criador do personagem Tintin. Na imagem acima, a modernosa Casa de Artes e Letras, em Atenas, financiada pela Fundação Onassis, a um custo de 50 milhões de euros. O desenho do prédio leva a assinatura do Architecture-Studio francês.

Segunda-feira, Junho 01, 2009

Um caminho possível (para chegarmos lá)

Quando escrevo um texto como este, lamentando a alienação política e a apatia generalizada que tomaram conta do meio gay, não acho que esteja chovendo no molhado. Mesmo sem me considerar um formador de opinião, acredito que compartilhar essas reflexões pode levar outras pessoas a também pensar sobre o assunto. Não deixa de ser uma forma de fazer alguma coisa para tentar melhorar nossa situação. Por outro lado, não ignoro que esse tipo de iniciativa tem um impacto limitado. Muitos leitores até concordarão com o que eu digo, irão se sentir incomodados por alguns instantes, mas logo virá outro post para distraí-los, e a eventual indignação acabará evaporando sem que ninguém tire a bunda da cadeira. E assim ficamos.

Tenho pensado em outras maneiras de fazer a minha parte. Como é possível virar a mesa? Algumas pessoas são realmente acomodadas: aguardam a misericórdia da sociedade, e contentam-se em colher os frutos do que for plantado por outras pessoas. Mas sei que há gente que se importa e até gostaria de fazer algo, mas não sabe como.

"As bibas são individualistas", "está todo mundo entorpecido pela mídia", "a inclusão que importa hoje é a do consumo". Sim, essas constatações são todas verdadeiras. Se formos esperar que os 3 milhões de pessoas espremidos pela Avenida Paulista dêem as mãos e promovam uma mudança, estaremos ferrados. Seria lindo se toda a vasta comunidade LGBT se unisse, mas, sejamos realistas, isso possivelmente não vai acontecer. Não posso falar por todos, mas olho ao meu redor e vejo muito mais gente tirando o corpo fora do que se importando de verdade. Então, não há saída? Há sim, mas não dá mais para viver uma utopia, sonhar com uma união que parece cada vez mais distante. A esperança não está nas atitudes coletivas, e sim nas individuais.

Mas por onde começar? Transformando palavras vagas e ideais abstratos em atos concretos, coisas que estejam ao alcance de cada um de nós. Nasceu aí minha ideia de fazer uma cartilha, uma lista de medidas exequíveis, palpáveis, realistas. Pequenas atitudes para cada um adotar no seu cotidiano, dentro de suas possibilidades individuais, que variam de uma pessoa para outra. São sugestões; ninguém precisa acatar todas elas, basta cumprir aquelas que estão mais próximas de sua realidade. Rodolfo, que é fortão, pode socorrer uma biba que está levando um coió ou sendo agredida; já Lucas, que é franzino, pode escrever uma manifestação de repúdio a um programa de TV homofóbico, e mandar para um jornal. Plínio, que é podre de rico e não suja as mãos nem com seu poodle, pode remanejar o valor de um jantar por mês para ajudar alguma ONG que auxilie travestis, soropositivos ou vítimas de preconceito. Todos nós podemos nos manter melhor informados sobre o mundo que nos cerca, e deixar de abaixar a cabeça quando vemos nossos direitos sendo preteridos.

A ideia é que cada um, sozinho, tome pequenas atitudes que transformem o mundinho ao seu redor, e assim ajudem a fazer a diferença. Eu faço aqui. Você faz aí. Eventualmente, os amigos dos amigos, que moram em Novo Hamburgo, Manaus ou Feira de Santana, se animarão também. Claro que nem todo mundo pode se dar ao luxo de sair do armário heroicamente e ser crucificado em seu círculo social. Mas cada um faz o que pode. E olha: tem coisa pra caramba que dá para fazer. Cada um no seu quadrado, podemos acabar gerando uma formidável corrente do bem. Pessoas comuns, anônimas ou não, entre seus amigos e familiares, fazendo um trabalho de formiguinha e multiplicando-o, semeando inclusão, promovendo cidadania e ajudando a enfraquecer o preconceito.

Para me ajudar na elaboração dessa cartilha, resolvi convidar mais cinco blogueiros (Gustavo, Cris, Daniel, BHY e Isadora) que, além de estarem entre os meus preferidos, têm uma visão crítica e que vai além dos muros da boate. Nem sempre estamos afinados com as mesmas opiniões, mas as divergências só vão enriquecer o resultado. Minha ideia é trabalharmos em cima disso pelos próximos 15 dias, até chegar a uma lista final com 50 itens. E publicar a cartilha em nossos blogs, na segunda-feira logo depois da Parada - quando todo mundo já "celebrou o orgulho" e está prontinho para esquecer a causa pelo resto do ano. Eu boto fé, e você? Sugestões serão sempre bem-vindas.

Sexta-feira, Maio 29, 2009

Desvendando os mitos do sexo pago

Verdade seja dita: para a esmagadora maioria dos homens gays, hoje em dia é muito fácil arranjar uma trepada. Se a luta pelos direitos civis ainda tropeça aqui e ali, em termos de possibilidades sexuais os nossos grandes centros urbanos não fazem feio às capitais europeias. Mesmo quem mora em cidades menores conta com a ajuda da internet, o supremo facilitador de fodas. Além disso, para bom entendedor, nem é preciso gastar o latim: com o olhar atento e um pingo de malícia, qualquer lugar pode render uma boa pescaria, do museu ao supermercado. Em se plantando, tudo dá.

Já que a coisa está dando em árvores, que fim terão levado os garotos de programa? Será que ainda existe demanda para o serviço que eles oferecem? E quem procura por ele? Se toda reportagem investigativa nasce para encontrar uma resposta, essa era a minha pergunta: quem paga por sexo hoje, e por quê? Nosso imaginário coletivo sempre encarou o sexo pago não como opção, mas falta de opção. "Pegar michê" é para velhos, gordos, solitários, gente que pendurou as chuteiras ou foi excluída do jogo. Verdade ou lenda? Sugeri a pauta para a revista DOM, eles gostaram e lá fui eu me embrenhar nesse universo, atrás de respostas. Era o começo de março.

Não demorei para sentir na carne que estava lidando com um tabu. Quando eu saía a campo atrás de fontes e personagens, o tema da reportagem provocava fascínio ou repulsa - jamais indiferença. Em discussões acaloradas, meus interlocutores tinham sempre opiniões formadas sobre o assunto, e eram muito convictos ao defendê-las. Ainda bem que eu não estava ali para defender ideia alguma, mas apenas para conseguir contatos. E foi o que fiz: conheci pessoas novas, conquistei a confiança delas, visitei saunas, conversei com rapazes que atendem pela internet. No final da apuração, entre boys (como os GPs preferem ser chamados) e clientes, eu tinha depoimentos de vários lugares do Brasil.

O que mais me surpreendeu foi a quantidade de caras jovens e atraentes com que me deparei - não GPs, e sim clientes. Claro que também encontrei vários fregueses (especialmente nas saunas) que se encaixavam no estereótipo do coroa-cacura, mas pude constatar que essa imagem está longe de ser regra. E que quem crê nesse padrão está endossando um preconceito. Preconceito, porém, é uma palavra que esses clientes não conhecem. A maioria se mostrou muito bem resolvida: nada de carência, solidão ou falta de perspectiva. Eles sabem muito bem o que querem e o que estão fazendo ali. Sexo com um boy é uma possibilidade a mais, da qual eles extraem o melhor, e que não inviabiliza contatos de outras naturezas, inclusive namoros sérios. Aliás, alguns dos entrevistados eram bem casados, apaixonados e felizes com os parceiros. Gente como aquele seu amigo Beltrano, bonitão e bem-relacionado, pode deitar e rolar com um GP, e você nem suspeita.

As motivações e expectativas dos clientes são variadas. Da comodidade aos fetiches, são muitos os fatores que levam essas pessoas a se mimar com uma transa profissional. Não vou entrar em detalhes, porque não quero entregar de bandeja a matéria, que está na DOM deste mês (aquela com o Gianecchini na capa). Mas ouvi histórias bem inusitadas e, no fim das contas, vi que eu mesmo tinha uma visão preconceituosa sobre o assunto e não sabia. Isso significa que hoje eu recomendo o sexo pago para todo mundo? Não. É uma forma de prazer que agrada a muitos, mas não serve para todos. A questão crucial: o que está em jogo ali é a satisfação do cliente, e apenas isso. É para usar, gozar, se lambuzar - e simplesmente abstrair o prazer do outro (o GP). Para algumas pessoas, isso pode ser muito excitante; para outras, o tesão do parceiro também é importante, ou mesmo fundamental.

Quarta-feira, Maio 27, 2009

O outro lado da garotinha

A mesma Cássia Eller que arrebatava multidões com seu vozeirão poderoso não tinha a menor consciência do próprio talento e era um verdadeiro poço de timidez na vida pessoal. E as circunstâncias que envolveram sua morte são bem mais complexas do que a suposta overdose de cocaína que foi divulgada com estardalhaço pela imprensa. Essas são algumas das revelações feitas em Apenas uma garotinha, biografia da cantora que leva a assinatura da dupla de jornalistas Ana Claudia Landi e Eduardo Belo.

O livro se presta a uma reconstrução minuciosa da vida pessoal e da trajetória artística de Cássia, a partir de um extenso trabalho de apuração, que colheu depoimentos de pessoas importantes da história da artista. Da amiga de infância com quem viveu seu primeiro amor até os produtores musicais e executivos da indústria fonográfica que se envolveram com a gênese de seus discos e o gerenciamento de sua carreira, uma sucessão de personagens vai sendo apresentada ao leitor ao longo da narração.

É de se elogiar a disposição dos autores em levantar detalhes e minúcias da história da cantora, num exaustivo trabalho de pesquisa. Ficamos sabendo até a cor do surrado Fiat 147 com que Cássia e sua trupe se deslocavam para os ensaios, nos tempos em que as vacas eram magras. Por meio das contribuições recebidas de suas fontes, os escritores vão construindo um rico perfil psicológico da cantora, a partir de sua origem, suas primeiras amizades, a descoberta do amor, os primeiros passos na carreira e a maneira como foi driblando os percalços do caminho. A apuração é tão bem-feita que, a partir de um certo ponto da leitura, a gente até esquece que Landi e Belo não chegaram a conhecê-la, tamanho o grau de intimidade e desenvoltura com que passam a tratar seu objeto de estudo. E o fã tem a chance de partilhar dessa intimidade, sentindo-se também próximo de Cássia.

Ao mesmo tempo em que cumpre função típica da reportagem jornalística, a obra de Landi e Belo atravessa a fronteira do gênero literário. A própria manipulação da linha cronológica, com a narração sendo iniciada pelos últimos dias que antecederam a morte da cantora, é recurso típico das obras de ficção. Na medida em que já entrega ao leitor algo que ele desejava descobrir, o livro conquista sua atenção de imediato e estimula-o a prosseguir com a leitura.

Os acontecimentos reais não são distorcidos, mas temperados com o “molho” da literatura, que apara arestas e preenche lacunas, criando um texto agradável, bem-amarrado e coerente, que não chega a descambar para o reino da ficção. O calor úmido e pegajoso do dia do nascimento da cantora, descrições que reproduzem sua fisionomia e seus cacoetes, bem como alguns dos diálogos apresentados são, possivelmente, acréscimos imaginários que foram feitos pelos escritores, traduzindo expediente que a crítica Lilia Silvestre Chaves chama de “pontes metafóricas”. Trata-se, porém, de um trabalho de ficcionalização bastante sutil, que busca deixar a obra saborosa, mas tem o cuidado de não abandonar a correção do relato – o que denota respeito à memória de Cássia.

Apenas uma garotinha faz mais do que satisfazer a curiosidade dos que querem saber sobre a vida de Cássia Eller. Ao expor a maneira como a cantora se relacionava com o mundo, o livro acaba pintando um retrato de sua geração, com o qual boa parte dos leitores certamente irá se identificar. Afinal, questões como o descompromisso e a incerteza típicos da adolescência, os desafios de escolher a vida artística e mesmo os excessos com farras e drogas, todas elas já imortalizadas por outros artistas que viveram uma existência meteórica (live fast, die young), ainda são bastante familiares ao universo dos jovens.

O livro oferece ao leitor, ainda, um olhar interessante sobre o caminho das pessoas comuns até a fama e o estrelato. Cássia venceu dificuldades de todos os tipos. Era um típico “bicho do mato” e teve que enfrentar sua timidez. Entregou a gestão da carreira a um tio que não tinha o necessário tino de administrador e provocou sua ruína financeira mais de uma vez. Foi uma artista abertamente bissexual, mas conseguiu criar seu nicho sem jamais transformar sua arte em panfletagem gay. Usou drogas e foi usada por elas – mas, apesar disso, conseguiu furar o cerco fechado das gravadoras, tornou-se reconhecida por crítica e público e ainda arranjou tempo e espaço para ser mãe. Tudo isso contabilizando sucessivos tropeços e vitórias pelo caminho. Nesse sentido, Cássia incorpora ao mesmo tempo o herói e o anti-herói. Uma história e tanto, típica das pessoas que conseguem se tornar especiais por aquilo que possuem de mais ordinário.

Quinta-feira, Maio 21, 2009

Os melhores clubes eletrônicos do mundo

A revista inglesa DJ Mag soltou a versão 2009 do seu ranking anual com os cem melhores clubs do mundo. Em primeiro lugar, nenhuma novidade: deu Berghain, incrível balada dentro de uma usina desativada de Berlim, que eu vivi e contei aqui. Logo abaixo vêm o Fabric, que passou a reinar absoluto em Londres depois do fechamento do The End, e o sensacional Space, que sozinho já justifica uma viagem à ilha espanhola de Ibiza. Ainda entre os dez mais, bambambãs já bem cotados em votações anteriores, como o Womb de Tóquio, o Amnesia de Ibiza e o Watergate de Berlim, além do próprio The End londrino, em homenagem póstuma.

A maior surpresa aparece em nono lugar: o nosso D-Edge [foto]. O lugar é bacanérrimo e um orgulho da nossa cena paulistana. Ainda assim, fiquei admirado vendo ele ficar acima de tantos outros clubes de peso. Mas isso não importa, e acredito que o caixote de néons da Barra Funda ficará ainda mais legal quando a expansão estiver pronta. A resenha exalta o sistema de luzes, a qualidade do som e o ecletismo do público: "sapatos de salto alto dividem a pista com tênis All Star, todos na mesma onda".

Outros clubes brasileiros que estão bem na fita são o Warung, de Itajaí (SC), em 15º, e o Sirena, de Maresias (SP), em 19º - ambos mereceram elogios rasgados de DJs estrangeiros que vieram conhecê-los. O Pacha de Buenos Aires aparece em 22º. O ranking, que pode ser visto aqui, é uma mão na roda na hora de planejar aquela jogação básica no Exterior. Afinal, a melhor balada da sua vida pode estar onde você menos imagina. Eu, por exemplo, não tinha ideia de que o Berghain pudesse ser tão especial.

Quarta-feira, Maio 20, 2009

Intervalo heterossexual

Muitas pessoas consideram este espaço um "blog gay", pelo simples fato de que essa é a minha orientação sexual, mesmo que eu não escreva o tempo todo sobre festa, boate e parada. Da mesma forma, vários dos blogs que frequento são feitos por caras gays como eu (alguns deles meus amigos na vida real, outros não). Às vezes, referem-se a nós como uma "blogosfera gay", como se fôssemos todos parte de uma onda coletiva. Chega a lembrar aqueles movimentos artísticos e escolas literárias, em torno dos quais críticos e professores aglutinam a produção cultural (não estou dizendo que sejamos artistas, escritores ou algo parecido, embora alguns possam ter essa pretensão).

Pois bem, por mais que goste dos meus colegas e também seja parte do mundjeeenho, às vezes me cansa flanar pela tal blogosfera gay e ter que ler trocentas visões dos mesmos assuntos. Aparece um vídeo viral engraçadinho (ou não), uma propaganda com leitura homofóbica, uma declaração polêmica de uma pessoa pública ou mesmo uma festa nova da buatchy, e lá vão os papagayos todos fazer currupaco em uníssono. É como se realmente existisse um maestro invisível fazendo o agenda setting da galera e ditando quais serão os assuntos relevantes do dia. E tome protesto contra os Doritos!

Por essas e outras, gosto de diversificar minhas leituras e respirar novos ares. E isso inclui alguns "blogs héteros" (já que somos rotulados como "blogs gays", imagino que o oposto também se aplique, ou não?). Muitos de nós se descobrem gays, sentem-se acolhidos pelo gueto e acabam limitando suas vivências (e amizades, e assuntos, e interesses) a um mundinho bastante pequeno. Nada contra: não acho que o gueto seja desabonador e tenho até uma certa preguiça desses caras (que um amigo chama de "bofes de soja") que torcem o nariz e dizem "estou fora do meio". Só acho que não precisamos limitar tanto os horizontes. Senão, sem nos dar conta, acabamos nos tornando heterofóbicos, prejulgando que eles são todos jecas, cafonas, chucros, só falam de futebol... e deixamos de conhecer pessoas muito legais.

Em outro post, já falei sobre o Manual do Cafajeste (que ainda leio, embora já não me encante mais tanto com os textos). Hoje, vou indicar outros dois blogs. O primeiro é o Papo de Homem, na verdade uma espécie de revista virtual produzida por uma equipe fixa e colaboradores eventuais. Como eles pretendem tratar de um amplo leque de temas de interesse do homem agatê, nem sempre os posts mais recentes agradam. Mas fuçando nos arquivos, achei algumas pérolas, como um texto genial, em duas partes (1 e 2), que tenta explicar por que algumas mulheres gostam de levar tapas na cara. O texto vai fundo no assunto (sem ser chato), disseca os tipos de tapa e seus contextos, e ainda traz dicas para os leitores interessados em introduzir a novidade em casa e apimentar a relação. Além de bem escrito e nada machista, o post é totalmente aproveitável em transas gays, que muitas vezes (nem sempre) funcionam segundo uma relação de poder e divisão de papéis similar.

Como nas revistas clássicas, existem as colunas de aconselhamento que prestam socorro aos leitores: Dr. Love, Dr. Health, Dr. Cook, Dr. Money e Ladies Room (escrita por um time de mulheres). Todas são muito úteis, mas claro que é a primeira coluna que rende os melhores momentos, como quando um leitor suspeita que está sendo traído e outro sonha em ver a mulher sendo impalada por um cara bem-dotado. As respostas são inteligentes, sem esculhambação, mas também sem deixar o bom humor de lado. O único deslize do Dr. Love - responder ao leitor que levava cheque da namorada que a chuca não era indicada - foi prontamente corrigido pelo colega Dr. Health nos comentários. Outros posts que valem o confere são o Grey's Anatomy brasileiro, levinho e divertido, e "Como deixar ousada até a mais santinha" (partes 1 e 2) - surpreenda-se com um texto nada óbvio ou vulgar, gostoso de ler e inspirador, mesmo que não totalmente aproveitável do lado de cá do arco-íris.

Por fim, outro blog hétero de que gosto muito é o Cretino Lover, obra de um criativo escritor carioca. Basicamente, são contos que descrevem histórias de sedução e conquista. O protagonista, alter ego do blogueiro, é o típico não-galã que precisa rebolar para garantir o seu filé. Em muitas histórias (mas não todas), ele começa a abordagem sem muitas chances, mas, com muito jogo de cintura e cara-de-pau, ele vai desarmando a presa, não desanima diante da resistência inicial, até que a ninfetinha-boazuda se encanta com o humor e a esperteza dele, baixa a guarda e ele papa o troféu (e aí vira conto erótico). Poderia ser um punhado de narrativas presunçosas e convencidas, mas o machismo porco dá lugar à inteligência, bom humor e uma fantástica presença de espírito - o cara é ágil e tem resposta pra tudo! Uma espécie de "malandro carioca do bem", um casanova antenado 2.0, um tipo que provavelmente não existe, mas rende ótimas histórias (como estas: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9). Você pega um post às vezes gigantesco, mas a leitura é ágil, flui tão bem que você não larga o osso até acabar. Nada como alguém nos lembrar que o tal jogo da conquista não precisa ser tão levado a sério, cheio de regras, e que o importante é se divertir sempre, até com os foras. A sorte também sorri para os anti-heróis.

Segunda-feira, Maio 18, 2009

Delícia carioca

Difícil ficar indiferente ao rapagão da foto acima. Com um sorriso perfeito e um corpo todo trabalhado na farmácia, o personal trainer Bruno Spinelli é a personificação da beleza masculina carioca. Claro que não se pode generalizar, nem todo mundo no Rio curte homens como ele, mas não dá para negar que esse é o padrão vigente e perseguido nas areias de Ipanema. E nas boates gays, claro. Uma escolha acertada para estampar a última edição de ACapa, simpática revistinha de bolso distribuída em points gays de São Paulo, Rio, Floripa e, a partir deste mês, BH e Curitiba.

Para quem achou Bruno uma coisa e já está com a cabecinha cheia de fantasias, uma dica: o fortão [o Mix Brasil decidiu que não se pode mais falar "barbie", que é demodê - anotaram, bees?] de 29 anos fez um ensaio ainda mais bonito para o site Eles Para Elas. São 50 fotos distribuídas em cinco séries, seguindo uma estética parecida com a do site The Boy. Confira os links de cada galeria: 1, 2, 3, 4 e 5.

E se você prefere gostosuras cariocas mais fáceis de comer, o festival gastronômico Restaurant Week está fazendo sua primeira edição no Rio, até o próximo domingo (24/5). O esquema é o mesmo: menus com entrada, prato principal e sobremesa, a R$25 (almoço) ou R$39 (jantar). Os pratos costumam ser menores e evitam ingredientes caros, mas dá para garimpar no site alguns cardápios bem interessantes (todos têm descrição e fotos). Se eu estivesse solto pela Guanabara, escolheria (em ordem decrescente) os menus do Emporium Pax, Geisha Hi-Tech, Bar d'Hôtel, Rio Scenarium, Esch Café e Madame Butterfly.

Sábado, Maio 16, 2009

Chorando sobre o Milk derramado

Um dos últimos filmes a que assisti antes desse recolhimento foi Milk, de Gus Van Sant, aquele em que Sean Penn reencarna o político e ativista gay Harvey Milk. Muito legal que a nossa geração tenha a chance de conhecer a história real de um líder que ousou remar contra a maré, quebrou paradigmas e enfrentou a mentalidade tacanha da sociedade americana dos anos 70 (não muito diferente da atual, como mostra a trágica Proposition 8). Segundo a última gerente de campanha de Harvey, Anne Kronenberg, "ele imaginou um mundo virtuoso dentro de sua cabeça e, em seguida, agiu para criá-lo de verdade, para todos nós". É um daqueles filmes que apertam uma tecla dentro de nós. E tem ainda o James Franco, que conseguiu ficar lindo de bigode, proeza que 80% dos mudernos de São Paulo jamais vai alcançar.

Ao mesmo tempo em que deixei o cinema tocado e inspirado, uma pergunta não saía da minha cabeça: onde foi que nós perdemos o bonde? Nos dias de hoje, a história de Harvey Milk soa romântica, quase utópica. Se vivesse no Brasil, ele seria tido como um sonhador excêntrico. O que aconteceu? Terá sido a repressão do regime militar, que promoveu o gradual esvaziamento do debate público e do engajamento político? Terá sido o bombardeio das mídias, que nos prostrou como idiotas na frente da TV e do computador, enquanto a vida passa lá fora? Estamos desconectados de tudo o que não diga respeito ao nosso emprego, ao nosso corpo, ao nosso umbigo. Nestes tempos tão individualistas, com cada um tentando puxar a brasa para a sua sardinha, quantos de nós teriam a disposição de se sacrificar, de fazer sua parte por um mundo menos homofóbico, como o ativista Milk?

Pelo visto, muito poucos. Nem para atitudes mínimas temos braços e pernas. A campanha Não Homofobia, abaixo-assinado virtual para a aprovação do Projeto de Lei 122, que criminaliza manifestações de homofobia, conseguiu míseras 40 mil assinaturas. How come?! É tão fácil, não tem que pegar fila nem tomar chuva, basta clicar e pedir para os conhecidos espalharem! Se não engrossarmos o coro, a ignorância evangélica sempre falará mais alto e selará nosso destino (e nossos projetos jamais serão aprovados). O governo federal acaba de aprovar o Plano Nacional de Promoção da Cidadania LGBT, com 51 diretrizes importantíssimas da nossa agenda, desde combate à discriminação no trabalho até reconhecimento da união homoafetiva para fins sucessórios e previdenciários. Você teve a curiosidade de ir atrás e saber algo a respeito? O certo seria acompanharmos os acontecimentos políticos em geral, que afetam o destino de todos os brasileiros, mas nem quando a discussão "é com a gente" nós conseguimos nos interessar.

Será que um futuro mais digno nos aguarda? Será que um dia vamos olhar para trás, e estes tempos de trevas que nos oprimem serão um passado tão irreal e absurdo quanto a perseguição aos judeus, o "endireitamento" das crianças canhotas ou o tabu em torno das mulheres divorciadas? A mentalidade brasileira vai mesmo evoluir, as pessoas que patrulham a existência alheia vão aprender a cuidar da própria vida, a orientação sexual de cada um vai deixar de ser um entrave ao exercício da cidadania plena? As novas gerações serão, de fato, mais tolerantes à diversidade? Linchar gays no meio da rua será considerado algo tão medieval como queimar cientistas na fogueira?

Talvez. Pode ser que sim. Mas para isso é preciso um breakthrough, um choque de mentalidade que precipite essa evolução que hoje acontece preguiçosa, em passo de formiguinha. E eu não vejo de onde pode partir esse choque, pelo menos não entre nós, que deveríamos ser os principais interessados. Mais uma Parada do Orgulho LGBT está chegando, ganharemos visibilidade internacional por preciosos instantes e, de Salvador a Porto Alegre, tudo o que preocupa as participativas bilus é saber a programação das festas e ficar com o corpinho em dia para não fazer feio na pista.

Sexta-feira, Maio 15, 2009

O descanso forçado continua...

... por mais 10 dias, se tudo correr bem. Mas vou ver se consigo voltar a atualizar o blog antes disso. Tenho diversos textos começados, que por algum motivo foram deixados de lado. Vou tentar tirar alguns deles da gaveta e desenvolvê-los, sem compromisso. Por isso, não se espantem se vocês lerem aqui alguns assuntos anacrônicos, que parecem meio deslocados no tempo. É uma maneira de ir retomando a vida, dentro das minhas possibilidades. O blog ainda vai levar algum tempo para voltar ao ritmo normal. [FOTO: Uma rara aparição no blog, para quem não tinha a menor ideia de como era o Introspective. Ouro Preto, MG, 20 de abril].

Domingo, Maio 10, 2009

Fora da tomada

Não sei se os outros também são assim, mas tenho uma necessidade enorme de manter minha vida sempre sob controle. Minhas metas, meus prazos, minhas responsabilidades. As pendências da semana no trabalho e na faculdade, o saldo e os próximos lançamentos na conta-corrente, o deadline dos freelas, o número de treinos do mês. Mesmo que eu me autorize a ter momentos de descompromisso, uma jogação ou um pilequinho, sei exatamente quanto tempo irá durar cada lapso de descontrole, quando ele vai terminar, quanto terei que descansar e a hora que o relógio voltará a funcionar normalmente e eu voltarei a produzir. Tudo planejado. As coisas precisam andar, eu preciso progredir, tudo depende de mim e está sempre na minha mão.

A gente se ampara nessa sensação de controle, mas ela não passa de uma ilusão. Achamos que podemos comandar tudo, mas a vida é mais forte do que nós. E às vezes ela trata de baixar nossa bola, dá um breque no nosso complexo de Superman e mostra que quem dá as cartas é ela. E simplesmente arranca o fio da tomada. E os nossos planos, obrigações, compromissos - importantes, inadiáveis, imediatos? Tudo pode esperar. O mundo lá fora, ele continuará girando, mesmo sem a gente.

Agora que estou fora do páreo, tenho espiado os giros do mundo exterior em doses bem homeopáticas. Dou uma olhada de relance, não posso me envolver muito: logo me canso e preciso me poupar. A Diurese Cultural que cobriu de mijo o centro de São Paulo... a farra das passagens aéreas em Brasília... as novas festas da Parada Gay... a crítica a elas feita pelo meu amigo Uomini (mesmo sem dizer nada de novo ou revelador, ele gerou uma grande repercussão, sinal de que muitas pessoas pensam da mesma maneira)... a gripe suína chegando ao Brasil... o tal trailer do filme que mostra o amor entre dois irmãos... os assuntinhos da hora são meros flashes que vêm e vão, e não preciso me mexer, interagir ou dar minha opinião. Outras pessoas certamente farão isso por mim, e a vida segue.

Não sei quanto tempo permanecerei desconectado. Minha mania de controle adoraria dizer que o blog ficará parado por xis dias, mas eu não tenho essa resposta. Aceito, afinal, que nem tudo está sob o meu controle. Dentro do possível, estou bem. Tenho uma mãe incrível, que está sempre ao meu lado e tem me dado umas demonstrações absolutamente tocantes de amor e dedicação. Ela está passando um Dia das Mães ingrato, mas farei questão de recompensá-la e levá-la para comer num lugar incrível quando eu estiver bom (e também puder comer). Os amigos - aqueles que importam, os que honram o status da palavra - também têm mostrado interesse e preocupação. Não desistam deste blog: pensem nisto como um simples "até breve". Agora preciso descansar e cuidar da minha saúde, mas voltarei à ativa assim que estiver pronto para outra. É tudo o que tenho a dizer no momento. Obrigado pelo prestígio de sempre. Beijos a todos.

Domingo, Maio 03, 2009

O que realmente importa

O que é mais importante para você? Qual o primeiro pedido que você faz para o "Papai do Céu" ou mentaliza quando corta o bolo de aniversário? O que está acima de tudo, meta número 1 da sua vida?

Um apartamento ricamente decorado e com vista embasbacante em Ipanema, nos Jardins ou melhor ainda - na sua capital europeia do coração? Aquele carro com o qual você se pega sonhando acordado? Um príncipe moreno, alto, forte, de olhos azuis, que venha buscar você trajando farda de gala, para uma noite de romance e loucuras inconfessáveis? Uma viagem por lugares mágicos e paradisíacos? Seu prato favorito, preparado com capricho, do jeito que você mais gosta? O disco que tem a música da sua vida? Ou a simples presença e o carinho dos amigos verdadeiros sempre à mão?

Nada disso. O que realmente importa é a SAÚDE.

Sem ela, você simplesmente não sabe o que fazer com a casa, o carro, o príncipe, a viagem, a comida, o disco ou o carinho dos amigos. Porque você não desfruta de absolutamente nada. E não aguenta nem o som do silêncio. O arrastar das horas sem melhora se torna uma verdadeira agonia, dentro de uma prisão solitária e sem janelas, onde jamais são aceitas visitas.

"Quando você está bem, qualquer lugar é Paris.
Quando está mal, nem Paris é Paris
".

Segunda-feira, Abril 27, 2009

Um lassi no inferno

Se uma dona-de-casa finlandesa alugar os DVDs de Cidade de Deus ou Tropa de Elite em uma locadora de Helsinque, será compreensível que ela descarte a ideia de passar férias no Brasil, horrorizada com a visão de um país onde crianças de oito anos correm descalças empunhando pistolas automáticas e montanhas de pneus queimam e assam pessoas no meio da rua.

Dentro desse mesmo espírito, quando vi o filme Quem Quer Ser Milionário, de Danny Boyle, tive a nítida convicção de que eu não visitaria a Índia nem por vinte milhões de rúpias, nem que o Malvino Salvador fosse meu acompanhante. A fita vencedora de sete Oscars mostra uma nação miserável, suja e nauseabunda, em que turistas são invariavelmente depenados, enquanto mercenários escravizam crianças pobres e arrancam-lhes os olhos, para em seguida explorá-los como cantores cegos.

Ao mesmo tempo em que admiro pessoas com cultura global, sempre interessadas e dispostas ao contato com outras realidades e civilizações, constatei que minha curiosidade em relação a culturas diferentes vai só até Tóquio e Istambul, e olhe lá. Em relação à Índia, eu bebo lassi, faço uma aulinha solta de ioga, como os PFs temáticos do Gopala, e namastê, meu bem. Meu amigo Tony que se aprofunde no resto - e nem precisa me convidar para os filmes de Bollywood que ele tanto adora (podem me chamar de cabeça-dura, que eu não ligo; todo mundo é mais curioso com alguns assuntos e menos com outros).

Feitas essas considerações, saí do cinema muito satisfeito. Não sei dizer se Slumdog Millionaire foi superestimado ou realmente vale todo o hype, só sei que foi o filme mais legal que vi no ano até agora. Depois da primeira meia hora, a história foi ganhando ritmo, criei empatia com o protagonista e fui gostando mais e mais, até achar que estava diante de um filmaço. Aos que ainda não viram, recomendo: vale até o choque de realidade e o desconfortável mergulho no mundo-cão.

[Nota mental: "esforçar-se para ver os filmes no mês em que eles entrarem em cartaz!"]

Sexta-feira, Abril 24, 2009

10 razões para você dar uma chance a BH

Antes de mais nada, quando falo em "dar uma chance", não é no sentido de fazer caridade, não. Belo Horizonte é uma graça de cidade. Mas menos gente vai conhecê-la do que poderia. Aqui vão alguns motivos para você se animar e experimentar.

1 ::: O acesso é relativamente fácil. Até dá para ir de carro: são 588km a partir de São Paulo e 444km do Rio. De ônibus, oito horas separam BH da capital paulista. Mas o melhor é aproveitar as ofertas das companhias aéreas - não é raro encontrar passagens na casa dos R$99. Fora das promoções, vá de OceanAir: as poltronas reclinam mais, o espaço entre as fileiras é maior e cada trecho sai em torno de R$150 a partir de Congonhas. Como o antigo aeroporto da Pampulha agora só recebe voos de dentro de Minas, você descerá em Confins, que fica nos confins do mundo. Mas ônibus executivos fazem o trajeto até o Centro por R$ 16,90, em intervalos de 30 minutos.

2 ::: BH é uma cidade agradável. Na grande área central demarcada pela Avenida do Contorno, as ruas, limpas e muito arborizadas, são mais convidativas para um passeio a pé do que as de São Paulo (apesar das ladeiras). O Parque Municipal é bonito e não merecia estar tão descuidado. Talvez tenha sido o feriado, mas também tive a sensação de que a capital mineira é calma e segura. Um amigo carioca me disse que BH é uma "metrópole com jeitão de interior", e agora consigo entender o que ele quis dizer.

3 ::: Se toda cidade pacata do interior tem uma praça, BH está muito bem servida nesse quesito. O planejamento urbano do Contorno desenhou várias delas. A que mais me encantou foi a Praça da Liberdade, com lindos jardins, coreto, duas fileiras de palmeiras imperiais e uma bucólica fonte luminosa. Outra que vale uma olhada rápida é a Praça do Papa, no caminho para Mangabeiras, que está em um plano elevado e tem uma vista OK da cidade (mas o melhor pôr-do-sol, você vê um pouco mais adiante, no Mirante das Mangabeiras).

4 ::: Para interessados em arquitetura, BH também tem uma porção de construções desenhadas por Oscar Niemeyer, incluindo até mesmo um "Copanzinho": o Edifício Niemeyer, na Praça da Liberdade. Nos anos 40, para desenvolver o entorno da Lagoa da Pampulha, Juscelino Kubitschek, então prefeito de BH, encomendou a Niemeyer vários edifícios, formando um conjunto arquitetônico: a Igreja São Francisco de Assis (que virou símbolo da cidade), a Casa do Baile (que tem jardins de Burle Marx e hoje sedia eventos de arquitetura e design) e o Museu de Arte da Pampulha, que nasceu como um cassino. Vá no fim de semana e aproveite para conferir as beldades fazendo cooper na Lagoa.

5 ::: Enquanto São Paulo tem os Jardins e o Rio tem Ipanema, em BH a zona charmosa é formada pelos bairros de Lourdes (que lembra o Moinhos de Vento em Porto Alegre) e Funcionários (onde fica a região conhecida como Savassi). Não espere uma Oscar Freire que concentre todo o movimento: os lugares legais estão dispersos, espalhados pelas ruas da região. Algumas dicas são o Graciliano (Rua Marília de Dirceu, 40), mistura de restaurante e delicatessen que faz festas eletrônicas quinzenais às sextas, o Yo Sushi (Rua Inconfidentes, 302), restaurante japonês fervidinho, e o California Coffee (Rua Sergipe, 1199), bom para fazer aquela pausa e tomar um Black Forest (espécie de shake de café gelado com gostinho de floresta negra).

6 ::: A comida é ótima e custa menos do que no eixo Rio-SP. O melhor almoço da viagem (e que ganhei de aniversário) foi no Café do Museu, que serve pratos contemporâneos divinos em um belo espaço, no mezanino do Museu Abílio Barreto. Para se esbaldar na culinária típica, o must de BH é o Xapuri: em um ambiente que recria uma casa de fazenda, são preparados no fogo à lenha pratos tradicionais mineiros em versões mais leves e atualizadas (vá cedo, a espera pode ser inviável). Na linha gordelícias, tem os incríveis milk shakes de amendoim e de nutella do Eddie Fine Burgers, os croissants de amêndoas da Casa Bonomi e os doces da Ah Bon. E, se a larica bater de madrugada, aposte nas massas 24hs do La Greppia ou nos pratos de estivador do tradicional Bolão, em Santa Tereza.

7 ::: Você gosta de bebericar, petiscar e jogar conversa fora? Então saiba que BH é a capital dos bares e botecos, com lugares de todos os tipos, cores e tamanhos. A tradição é reforçada pelo festival Comida di Buteco, espécie de concurso anual em que 41 botecos criam receitas que reinterpretam a culinária de raiz (a edição 2009 já está rolando e vai até 17/5). Meu endereço preferido é o Café com Letras (Rua Antônio de Albuquerque, 781), um bar-livraria construído numa casinha antiga absolutamente fofa e encantadora. Frequência bonita, música cool, pratos saborosos, uma torta de limão incrível e o melhor cosmopolitan que já provei. É só abstrair o serviço, um tanto apalermado, para não dizer pateta.

8 ::: A Josefine - ou Jô, para os nativos - é um dos melhores clubes gays em que já estive, tendo como parâmetro a noite de outras capitais do mesmo porte de BH. No térreo, a pista principal recebe uma mistura bem animada de pólo boys novinhos, barbies descamisadas e meninas fervidas, que dançam ao som do residente Mauro Mozart, um cafuçu altamente umidificante (ovulei horrorezzz com a cara de mau dele!). No piso superior, há outra pista, com um lindo jogo de lustres azuis e vermelhos, em que o som é electro. Como alternativas à Jô, há o Andaluz Club Café, também gay, e alguns clubinhos modernos/mixed, como o Miss Pig e o Mary In Hell. Isso se não tiver alguma festa especial rolando por aí.

9 ::: Cansou da capital? Existem várias atrações bacanas nas imediações. Todo mundo lembra primeiro das cidades históricas: a superpop Ouro Preto, com suas ladeiras, igrejas e restaurantes, fica a apenas uma hora de carro. Se preferir algo menos muvucado e mais intimista, tente Tiradentes, a 210km de BH. No capítulo ecoturismo, o Parque Nacional da Serra do Cipó tem esportes radicais e uma porção de cachoeiras. Por fim, o Inhotim (em Brumadinho, a 60km de BH) é uma espécie de centro de arte contemporânea, formado por sete pavilhões espalhados dentro de um belo parque ambiental. Quem conhece diz que é incrível (tive que deixar esse passeio para a próxima visita, que não deve demorar).

10 ::: Last but not least, a maior surpresa da viagem: os mineiros! Nunca vi um povo tão acessível, simpático, carinhoso. É muito fácil puxar papo com gente nova e você logo se sente inserido. Conhecê-los e jogar conversa fora com eles é um prazer, dá para ficar horas ali (vai ver que é por isso que existem tantos bares). Sem falar que eles recebem muito bem: em minha estada de quatro dias, não passei cinco minutos sozinho. Os baianos que se cuidem, porque os mineiros são sérios candidatos ao título de povo mais boa-praça do Brasil.

[FOTOS: Praça da Liberdade; pôr-do-sol no Mirante das Mangabeiras]

Quarta-feira, Abril 22, 2009

Trabalhador vítima de preconceito conquista direito a uma indenização milionária

Ao entrar em uma agência do Bradesco na Av. Antônio Carlos Magalhães, uma das principais da cidade de Salvador, o gerente Antônio Ferreira dos Santos, que completava 20 anos de carreira no banco em 2004, foi surpreendido por uma carta: "O senhor está demitido por justa causa por motivo de desídia, indisciplina e ato de improbidade". Indignado, recorreu à Justiça, o que resultou na maior indenização trabalhista envolvendo uma vítima de assédio moral já concedida pela Justiça brasileira, e na primeira condenação do Tribunal Superior do Trabalho (TST) por uma demissão imotivada envolvendo preconceito por conta da orientação sexual do trabalhador.

Os ministros da segunda turma do Tribunal garantiram a Santos uma indenização de R$ 1,3 milhão. Até então, a maior indenização por assédio moral de que se tinha notícia no país havia sido de R$ 1 milhão, contra a Ambev, mas em uma ação civil pública em benefício de vários trabalhadores, e que foi resolvida por acordo nas instâncias inferiores, sem chegar ao TST.

Na Justiça do Trabalho, o assédio moral é caracterizado por atos repetidos de violência moral e tortura psíquica e pela intenção de degradar as condições de trabalho do empregado. Os motivos vão desde a pressão pelo cumprimento de metas, especialmente na área de vendas, até humilhações constantes pela opção política do empregado ou por ser portador do vírus HIV, por exemplo. Geralmente, os valores das indenizações em processos individuais variam entre R$ 10 mil e R$ 30 mil, majorados conforme o tempo do contrato de trabalho em questão.

No caso julgado agora pelo TST, o gerente do banco começou sua carreira no Baneb, incorporado em 1999 pelo Bradesco, e estava na instituição há 20 anos. Segundo ele, o assédio moral ocorreu durante os últimos cinco anos de trabalho na agência, até 2004, ano em que a ação foi ajuizada. "Foram os piores anos da minha vida", diz Santos. O gerente relatou à 24ª Vara do Trabalho de Salvador diversos episódios de preconceito sofridos por conta da atitude de um diretor regional do Bradesco que, segundo ele, frequentemente o expunha a constrangimentos públicos - por exemplo, sugerindo que ele utilizasse o banheiro feminino da agência ou dizendo, em público, que o banco "não era lugar de viado".

Após ouvir três testemunhas, a primeira instância considerou que foi colocado em prática um ato típico da Inquisição, que a história já conhece e abomina, e que a empresa deveria arcar com as consequências. Caracterizado o assédio, foi fixada uma indenização de R$ 916 mil, por danos morais (pela humilhação) e materiais (porque, ao ter sido dispensado por justa causa por improbidade administrativa, o trabalhador teve dificuldade de conseguir novo emprego). "A justa causa foi uma forma de camuflar o preconceito", diz o advogado Bruno Galiano, do escritório Cedraz & Tourinho Dantas, que defende o trabalhador.

O Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região (Bahia) concluiu que a demissão foi discriminatória, mas reduziu o valor da indenização para R$ 200 mil. A disputa chegou ao TST em 2006, cabendo aos ministros decidir se a Lei nº 9.029/95, que quantifica o valor das indenizações em razão de demissões arbitrárias, poderia ser utilizada no caso. Essa lei prevê indenização no caso de preconceito por "sexo" e até então só havia sido usada em casos de discriminação de mulheres no trabalho. Para o ministro Renato de Lacerda Paiva, a lei não surgiu para limitar os motivos da discriminação: outros motivos, como o preconceito por antecedentes criminais, falta de boa aparência e opção política não estão nas normas, e não deixam de ser discriminação.

Os ministros consideraram ainda determinações das convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e princípios constitucionais de igualdade e dignidade. A possibilidade de uso da Lei nº 9.029 aumentou a indenização. Isso porque a norma oferece duas opções ao trabalhador demitido por discriminação: a reintegração no cargo ou a condenação da empresa ao pagamento do dobro de seu salário desde o ajuizamento da ação até o trânsito em julgado da sentença, com correção monetária. No caso de Santos, que recebia em torno de R$ 5 mil, a quantia total da indenização por danos somada à condenação pela Lei nº 9.029 já alcança R$ 1,3 milhão. Ainda cabem recursos ao próprio TST e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Assim, se o banco recorrer e perder, o retardamento do processo pode levar a uma indenização ainda maior.

[Matéria publicada hoje no Valor Econômico; a autora é Luiza de Carvalho. Postei aqui porque acho que essas vitórias merecem ser comemoradas e divulgadas!]

Terça-feira, Abril 21, 2009

Obrigado por tudo!

Hoje estou completando 31 primaveras. Desta vez, não estou vivendo o mesmo turbilhão de emoções do ano passado, e sim passando a data de um jeito mais leve e zen. Sem expectativas excessivas, mas totalmente seguro de que o melhor está no meu caminho. Tenho tido muitas bênçãos: saúde perfeita, a melhor mãe do mundo, amigos absolutamente maravilhosos, desafios e oportunidades para que eu possa crescer e alcançar as coisas que quero e sempre quis. E vem muito mais por aí.

Escrevo estas linhas em Belo Horizonte, longe dos amigos de sempre, mas cercado por outros: pessoas bacanérrimas, encantadoras, supercarinhosas, que têm feito jus à fama dos mineiros de serem um povo simpático, boa-praça e acolhedor. Deixo aqui meu carinho e gratidão aos meus queridos anfitriões, Marco, João e Johnny, além de Marcelo e Ric, Rodrigo, Leo, Gil, Paulinha, Henrique e Bruno, pessoas que são por si só uma boa razão para eu voltar a BH (as outras razões, vocês saberão no próximo post, em breve!)

Também quero agradecer a todos vocês, que ajudaram estes "Textos, Pretextos e Contextos de Introspective" a ultrapassar a marca das 150 mil visitas. Amigos queridos e fiéis e também pessoas novas que, vira e mexe, me abordam nos lugares, dizendo "ei! eu adoro o seu blog!" e me deixam muito feliz e motivado a continuar escrevendo. Se depender de mim, vocês ainda poderão ler muitos textos meus aqui e em vários outros lugares! Beijo grande a todos e nos vemos por aí!

[FOTO: tarde de sol na Praça da Liberdade, Bairro Funcionários, BH]

Sexta-feira, Abril 17, 2009

Doritos, boás e purpurina

O Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar) determinou ontem a suspensão da veiculação daquele malfadado comercial do salgadinho Doritos, em que um adolescente era gongado por fazer a dancinha de "YMCA". A propaganda foi considerada ofensiva aos homossexuais, na avaliação dos conselheiros de ética da entidade, que votaram, em sua maioria, pelo pedido de sustação do filme. Na época do bafafá, a fabricante PepsiCo afirmou que a peça "não faz nenhuma menção ao homossexualismo" e "respeito, compartilhamento e inclusão são valores indispensáveis para a empresa", em uma nota que não poderia ter sido mais chapa-branca. Agora, ao invés de deixar a poeira baixar sobre o episódio, a empresa irá recorrer da decisão.

Não vou entrar no mérito da propaganda (o que, a esta altura do campeonato, seria como chutar cachorro morto). O que chamou a minha atenção foi que, enquanto os gays se indignaram, os héteros não conseguiram enxergar preconceito algum na peça publicitária. Nos sites AdNews e Clube Online, dirigidos a publicitários, a notícia da suspensão do comercial foi recebida com reprovação. "Ridículo! está acontecendo uma verdadeiro exagero, questiono a capacidade dos profissionais deste conselho em avaliar as queixas", "preconceituoso é quem enxerga a polêmica, a propaganda é ótima", "as reclamações vieram de pessoas que não têm um mínimo de senso de humor, esse é o único comercial que eu paro pra assistir", "obviamente é uma brincadeira sem maldade".

De fato, a grande massa heterossexual não vê nenhuma maldade em se fazer piada com os gays. É uma questão de mentalidade. Ridicularizar os negros é moralmente reprovável, com o racismo sendo alçado ao status de crime (até mesmo hediondo, para alguns), mas os homossexuais não merecem o mesmo veredito quando a violência é dirigida a eles. A referência projetada socialmente - gays são pessoas caricatas, inofensivas, brincalhonas, que não se deve levar a sério - reforça a idéia de que achincalhá-los é normal e plenamente aceitável. A participação de Silvetty Montilla no último Toma Lá Dá Cá, na Rede Globo não me deixa mentir. Que mal há em rir das bichas? É tudo brincadeira! Não me surpreende que o jornal carioca Meia Hora tenha noticiado a morte do estilista Clodovil com a manchete "virou purpurina". Afinal, somos todos alegres e divertidos, não é mesmo? Como gostam de escrever os héteros, "kkkk".

SoGo: mudou sem deixar de ser a mesma

Eu li em uma revista especializada que, na indústria automobilística brasileira, um carro é projetado para viver 8 ou 10 anos, antes de sair de linha. No entanto, não dá para o produto ficar intocado por tanto tempo: se, ao longo dos anos, ele não passar por algumas reformulações, o comprador, sempre ávido por novidades, perderá o interesse nele e migrará para a concorrência. Para postergar a vida útil de um carro no mercado por mais alguns anos, até que seu substituto esteja pronto, as montadoras recorrem ao chamado facelift: fazem mudanças estéticas sutis - nos faróis ou no desenho da grade dianteira, por exemplo - que rejuvenescem e dão um novo sopro de vida ao veículo, mantendo seu apelo junto ao consumidor.

Pois bem, o clube SoGo acaba de ganhar seu facelift, revelado ao público anteontem, em uma festa semifechada. Já não era sem tempo: a casa completou dez anos de estrada, o que não é pouco. Especialmente se lembrarmos que ela está instalada no coração dos Jardins, que tem um histórico de intolerância a estabelecimentos gays por parte da vizinhança. A cruzada homofóbica do bairro atirava garrafas em freqüentadores do bar L'Open e conseguiu varrer do mapa o Ultralounge. Diz a lenda que a SoGo não teve o mesmo destino porque seu imóvel era próprio e não alugado; quando os vizinhos insistiram em pedir o fechamento, o proprietário da SoGo disse que então usaria a casa para servir sopa a travestis soropositivas. Os vizinhos, então, teriam preferido deixar o clube em paz...

Se a idéia era dar um chica-chica-bum no ambiente, parece que a intervenção cirúrgica funcionou. O bar ganhou tons mais claros e ficou mais moderno e convidativo. Aquela porta giratória horrenda que ficava no meio do caminho e parecia ter saído de uma boate da rua Franz Schubert, direto dos anos 90, foi retirada, o que fez a casa ganhar um bom espaço. A pista ganhou uns filetes laterais de luz bem bacaninhas e o DJ agora toca num balcão mais baixo, que permite interação com o público. Subindo as escadas, o tricô nos banheiros continua bafônico, e é por eles que será feito o acesso ao dungeon bar, o anexo "picante" da casa, cuja repaginação ainda não está concluída.

É claro que, com bebida a rodo (ao contrário do que prometia o convite, o open bar não foi só até meia-noite) e aquele clima eufórico de inauguração, cheio de gente conhecida, a noite não tinha como ser ruim. Mas dá para ver que o clube acertou mesmo. Por um lado, a reforma deu uma atualizada no espaço, espantou o "bode" de quem já havia se cansado (eu mesmo não pisava lá havia pelo menos seis anos) e reinseriu a casa no circuito. Por outro, o lugar não se descaracterizou e continua tendo o mesmo clima aconchegante de que as pessoas aprenderam a gostar. Se tratarem a programação musical com algum capricho (consta que as quintas terão uma pegada mais eletrônica, com Mimi e Marcelo Saturnino), a SoGo pode ser uma ótima opção para o meio da semana e até para o finde. Afinal, é legal alucinar em um espaço mega, mas precisamos de bons clubes menores também.

Quinta-feira, Abril 16, 2009

Consagração ou compaixão?


Britains Got Talent 2009 Susan Boyle 47 Year Old Singer
Enviado por kj1983

Quando postei aquele vídeo adorável dos meninos fazendo a dancinha do Daft Punk, um leitor anônimo resmungou que tratava-se de "notícia velha, vídeo antigo". Então, desta vez vou me redimir postando sem demora o vídeo-coqueluche da semana: o de Susan Boyle, uma aspirante a cantora que causou sensação no programa Britain's Got Talent, espécie de American Idol inglês.

Não tenho estofo para comentar a performance de Susan, mas é evidente que a comoção gerada tem pouco a ver com os dotes vocais da jovem senhora. O buraco é mais embaixo: a candidata foi inicialmente recebida pelos jurados e pelo público com má vontade e risinhos jocosos, pelo simples fato de que não se enquadra nos padrões de beleza vigentes (Susan parece encarnar aquele típico "loser da vida real", que as comédias inglesas exploram à exaustão). Mas, quando ela começou a cantar, eis que o marreco virou cisne: todos os presentes se emocionaram, visivelmente pegos de surpresa. Não pareciam dispostos a dar uma chance a ela, porque era feia, malvestida e desengonçada, mas acabaram deixando os julgamentos de lado e ovacionando o número, que ganhou nota máxima dos jurados, num final edificante, que deve ter dado orgasmos à produção do programa.

O vídeo está tendo uma mega repercussão: enquanto digito este post, foram mais de 12 milhões de acessos no YouTube (até meu chefe, que costuma ser o trigésimo oitavo elo na cadeia de transmissão de hypes, já assistiu). A maioria dos comentários é de pessoas que se mostram encantadas com a vitória de anti-herói protagonizada por Susan: no blog do Tony, por exemplo, o leitor André Luís Aquino fez um desabafo longo e emocionado. Mas há quem enxergue a coisa com senso crítico. Afinal, Susan deveria ter sido tratada como uma candidata qualquer e valorizada por seu talento - não com misericórdia e compaixão, que não deixam de ser formas de preconceito às avessas contra quem está fora dos padrões. É o que defende Rubens neste post, e neste outro também, fazendo um contraponto bastante interessante. [UPDATE: também recomendo que não deixem de ler este fantástico post, de longe o melhor sobre o "caso Susan"].

Quarta-feira, Abril 15, 2009

GPS para GLS

São Paulo pode ter atrações para todas as tribos, mas é uma cidade que não sabe tratar os seus turistas. Os postos de informações são difíceis de encontrar e o material de apoio é escasso. Numa metrópole de porte gigantesco, transporte público nada intuitivo e transeuntes nem sempre dispostos a parar e ajudar o próximo, o mínimo que se pode oferecer para que um visitante consiga se virar é um mapa de bolso decente, que cubra as áreas mais interessantes para o turista. Praticamente toda grande capital que se preza tem isso. E muitas (inclusive Buenos Aires) ainda têm mapas dirigidos ao público gay, apontando onde ficam os bares, as boates e as saunas.

O que muitos talvez não saibam é que já existe um produto desse tipo por aqui. O São Paulo de Bolso acaba de completar um ano, com quatro edições de distribuição dirigida: em pontos estratégicos como as lojas Foch, a sauna 269, o restaurante Consulado Mineiro e a rede de hotéis Formule 1. Eu já devo ter visto alguma das edições passadas, mas confesso que só parei para examinar o dito cujo no feriado de Páscoa, quando amigos de fora vieram me visitar e eu peguei na fofíssima loja 2Meninos alguns mapinhas para dar a eles.

O material, em dimensões bastante convenientes (11cm x 11cm), compreende um mapa dobrável e um livrinho, do qual pode ser destacado. Recheado de anúncios, o mapa faz um recorte bastante completo do miolo que importa para o turista: a região da Paulista e Jardins, o Centro, a boemia de Pinheiros, Vila Madalena e Itaim e bairros residenciais como Higienópolis, Perdizes, Vila Mariana, Moema e até uma parte do Morumbi. É reconfortante a sensação de que a cidade cabe na palma da mão e pode ser assimilada. Os estabelecimentos de interesse GLS estão marcados com bolinhas numeradas.

O livrinho dá suporte ao mapa, com os estabelecimentos listados na ordem das bolinhas numeradas. Se serve como simples legenda, começa a derrapar quando arrisca ir além. Saltam aos olhos erros de português ("acadêmias", "alta estima" onde claramente queria se dizer autoestima, "bambú terapia") e traduções toscas para o inglês ("stores suplements", "coffees"). As descrições dos lugares são pobres, redundantes ("saboreie doces momentos com melhor doce", "cozinha tailandesa numa cozinha contemporânea") e nada informativas. O Kayomix, por exemplo, é um "restaurante japonês que dispensa qualquer tipo de apresentação" (ah, bom! muito esclarecedor: o leitor que não conhece é burro e desinformado). O Exquisito é - adivinhem! - um "bar totalmente exquisito, que faz jus ao nome". O Piaf é um lugar "de bem com a vida" (oi?). O shopping Pátio Higienópolis é de "alto poder aquisitivo" (não seriam os clientes?). O Conjunto Nacional é "o point cultural clássico da cidade" (desde quando?). E as "underwears" [sic] da Foch "estão presentes em 70% dos gays" (por acaso a mocinha do IBGE já parou algum de vocês na The Week?)

Se as indicações do guia já trazem um festival de bobagens, a coisa complica ainda mais quando o guia tenta oferecer conteúdo jornalístico. A entrevista com a personalidade da capa, um empresário mineiro que veio abrir uma associação LGBT em São Paulo, é sofrível: não soube tirar boas respostas de alguém que certamente tinha algo a dizer, nem mesmo mostra a que veio a tal associação. Mas o pior de tudo é a "matéria de saúde", um texto (muito mal) escrito pelo diretor de um centro de tratamento para dependentes químicos, que só faz desfiar um rosário de clichês, em tom de julgamento e recriminação. Os usuários "possuem uma fragilidade de virtudes", "é quase impossível encontrar valores refinados (?) como bondade, compaixão e amor" e, para terminar, "em muitos casos podemos somente assistir seu fim de maneira deplorada" [sic]. Pastor evangélico perde.

Enfim, a iniciativa do SPdB era mais do que necessária e deve ser prestigiada. Com uma parada gay levando 3 milhões de almas à Avenida Paulista e uma cena que tenta se articular e se profissionalizar, já estava na hora de alguém pensar em algo tão básico como um guia de bolso para os turistas que vêm se jogar por aqui. Mas o produto ainda tem muita coisa a melhorar, a começar pelos textos, que precisam urgentemente de uma supervisão competente. Por enquanto, o guia vale mais pelo mapa em si - que fica ainda mais portátil se, após jogar o livrinho fora, você rasgar cuidadosamente os anúncios em volta. Mas algo me diz que não era essa a idéia original deles...

Sábado, Abril 11, 2009

Oi e boa Páscoa!

São Paulo está com uns dias lindos, lindos. Céu azul, sol e um calor que não incomoda e diminui bastante no fim da tarde. E tudo fica ainda mais gostoso por ser feriado: com a debandada em massa dos paulistanos, as ruas estão tranquilas e não há filas para nada. É uma boa ocasião para ir almoçar em algum dos lugares que sugeri no post de 6 de fevereiro, um roteiro só de restaurantes em espaços agradáveis, com muita luz natural ou mesas ao ar livre.

Enquanto a maioria descansa, eu rebolo para dar conta de pendências no escritório, provas e trabalhos no curso de jornalismo. A coisa tá preta aqui. Vou tentar não deixar a peteca cair, mas é possível que o ritmo das postagens no blog diminua nos próximos dias. Mas assuntos nunca faltam. E, no final de semana que vem (outro feriado, Tiradentes e meu aniversário), vou me jogar em Belo Horizonte. Mais uma vez, passo o chapéu e peço dicas de passeios, comidinhas e fervos aos meus leitores amigos. Boa Páscoa para todos!

Quarta-feira, Abril 08, 2009

Daft Punk no Créu 5



Enquanto a febre da Stephany continua se alastrando por aqui, internautas de outras partes do mundo também cultuam suas pragas virais. Vejam só que bonitinha esta. Dois rapazes franceses fazem um stripzinho e dançam "Harder, Better, Faster, Stronger", do Daft Punk. Para acompanhar a música, eles vão mostrando as palavras da letra pintadas em diversas partes de seus corpos. Parece bobo? Pois então tente fazer em casa - não deve ser fácil sincronizar tanta informação, especialmente quando os versos vão ficando mais rápidos...

A ideia só não é mais genial porque o vídeo deles é, na verdade, uma resposta a uma versão anterior da brincadeira, feita por duas meninas branquelas e bundudas, com caixas de papelão na cabeça (e, portanto, bem menos interessante). Ambos os vídeos andam bombando no YouTube: a versão male teve mais de 2,5 milhões de acessos e a original, 5,7 milhões de exibições.

Domingo, Abril 05, 2009

A fórmula do Skol Terreirón


Sabem como se faz a "melhor festa eletrônica do mundo"?

Prestem atenção na fórmula, macacas:

Pacha + Beto Carreiro World + Salão do Automóvel = SKOL SENSATION

(Foi o erro! Filas gigantescas para entrar, música simplesmente horrorooosa, shows que eram o cúmulo da cafonice, produção bem mais pobre que a original, bares em colapso, héteros mal-educados e, para coroar o desastre, seguranças que empurravam, agrediam e machucavam o público, na tentativa de abrir espaço rápido na pista, para que um carrinho cheio de performers-medo desfilasse.
Tipo, fomos literalmente ATROPELADOS pela "intervenção artística",
é mole???)

Eita dinheiro jogado fora! Jesus me dê Fendi!

Sexta-feira, Abril 03, 2009

Rapidíssimas

EMPÓRIO ::: Amanhã e domingo vai ter Mercado Mundo Mix, em novo endereço: um estacionamento na Av. Paulista, perto do prédio da Gazeta. Quando comecei a sair, nos idos de 1998-1999, eu adorava ir ao MMM e também ao Mambo Bazar (que rolava naquele casarão lindo em frente ao Bob's). Depois, acho que tudo se pasteurizou demais e perdeu a essência. Mas vou dar uma conferida, nem que seja por nostalgia!

DORIL ::: Os usuários do Manhunt estão bem desgostosos. A reformulação visual do site, feita às pressas e de qualquer jeito, simplesmente deletou as mensagens da caixa de entrada e o histórico de visitantes dos usuários. Pra piorar, muitos não conseguem fazer login e recebem a informação de que tiveram o perfil desativado. Melhor se tivesse ficado como estava, não?

BACALHOADA ::: São Paulo sempre teve opções para os amantes do sexo por atacado: Gladiators, Blackout, RG31 e as festas da sauna Wild são alguns exemplos. Tinham lá seus adeptos, mas o grande público torcia o nariz. A popularidade da 269, com seu grande estábulo no piso superior, provocou uma mudança de atitude: o povo foi perdendo o pudor de se jogar na frente de todo mundo. Hoje, outro sex club abre as portas: o Upgrade, tocado por um ex-sócio do RG31. Será que agora a coisa pega?

PASSAPORTE ::: E a The Week finalmente começa a dar seus primeiros passos no exterior. Alguns especulavam sobre uma possível filial em Buenos Aires, mas, por enquanto, o clube fala apenas em festas. A primeira será na DBOY de Barcelona, no dia 11/4, aproveitando o fluxo de europeus que vão passar a Páscoa na capital catalã. Depois, virão França, Inglaterra, Canadá, Argentina e México. Gostei da DBOY, mas acho que será ainda mais legal quando a TW fizer day parties em lugares abertos!

DORMINHOCO ::: Confesso que não esperava que a procura pelo Skol Sensation fosse tão grande. Resultado: demorei para comprar meu convite, a meia entrada acabou e agora eu simplesmente não quero pagar R$160. Depois eu pergunto pros amigos como foi. Next...

Quarta-feira, Abril 01, 2009

A "aerovana" da Gol ataca Buenos Aires

Enquanto eu dava pinta no Planalto Central, teve muita gente que passou o fim de semana se esfalfando para tentar comprar os assentos promocionais que a Gol disponibilizou no tal Feirão. Como já aconteceu em promoções semelhantes dessa companhia que nasceu para ser barata, o site teve vários problemas - e, ainda assim, o resultado das vendas foi 40% superior ao que eles esperavam. Entre as pechinchas, tinha Guarulhos-Buenos Aires a R$179.

Alguns amigos felizardos conseguiram garfar seus lugares e vieram me pedir dicas argentinas. O blog tem bastante coisa sobre o assunto, que ainda é um dos que mais atraem internautas para cá, por meio dos sites de busca. Basta clicar no marcador "buenos aires", no canto esquerdo, e todos os meus posts relacionados ao tema aparecerão. Vou aproveitar essa "marolinha" de interesse sobre a cidade e deixar aqui mais algumas dicas.

Pelo visto, o Palacio Alsina deixou de fazer noites gays [alguém pode confirmar essa informação?]. Com isso, o Amerika torna-se praticamente a única opção de clube direcionado às culegas di classe. Pelo menos, o clube tem caprichado na programação eletrônica: amanhã, por exemplo, o convidado é o sempre chique Aldo Haydar. No capítulo bares, um amigo portenho acabou de me contar sobre uma nova opção para as sextas, o Rheo Bar, que fica ao lado do Crobar (ali no Paseo de La Infanta, dentro dos Bosques de Palermo). Ele disse também que o clube eletrônico Mandarine está emplacando nos sábados como uma opção um pouco mais gay do que o Pacha.

Neste sábado, nunca é demais lembrar que vai rolar em Costa Salguero a edição 2009 do festival Southfest - com Sasha, Tiga, Fischerspooner e o ótimo Basement Jaxx no line up. Nem preciso dizer que, por conta do festival, o after do Caix (que também fica em Costa Salguero) estará babadeiríssimo e absolutamente imperdível. Se bobear, vai ser mais divertido que o Southfest em si.

Para quem gosta de gastronomia e já é habitué da cidade, uma dica bem legal é o Guía Oleo, um site com resenhas de restaurantes. Jabá não entra: as avaliações são feitas pelo próprio público, que dá notas sobre comida, serviço e ambiente, e faz comentários francos e reveladores. É uma ótima maneira de se inteirar sobre as novidades do circuito (há uma seção só com lugares novos) e também saber a quantas andam os velhos conhecidos. Antigos favoritos do blog, o bufê Marini Gourmet e o tailandês Empire parecem ter deixado a peteca cair, tamanho o número de críticas falando sobre sua decadência. Outro que não tem sido poupado é o Te Mataré Ramirez, aquele da culinária contemporânea afrodisíaca. Hora de riscá-los do roteiro e abrir espaço para outros sabores.

Já para quem quer se situar na noite portenha, o endereço é o Buenos Aliens, que traz a agenda dos principais clubes/festas/afters da cidade e arredores. Ótimo para achar baladas no meio da semana (o Bahrein continua bombando), ou mesmo descobrir quem estará tocando no seu boliche (clube) predileto no finde. Hoje, rola no Niceto uma edição da Brandon Gay Day, festa esporádica que atrai um público gay mais alternativo. E para quem gosta de um som eletrônico mais underground, aqui vai a última dica: dizem que o Cocoliche está cada vez melhor.

[UPDATE: para pesquisar restaurantes, mais uma dica é o site Vidal Buzzi, que tem um mecanismo completo de busca por ambiente, comida, bairro e faixa de preço]

Terça-feira, Março 31, 2009

O sobe-e-desce de Brasília

Minha vivência em Brasília foi bem mais breve do que em outras cidades para as quais escrevi um sobe-e-desce no blog, como Recife, Buenos Aires, Salvador e Florianópolis. Como sempre, tentei aproveitar meu tempo da melhor maneira possível: fiz uma pesquisinha básica antes de viajar e um monte de perguntas para as pessoas que conheci depois. Ainda assim, foram menos de 48 horas, e sei que algumas impressões podem mudar nas minhas visitas seguintes. O que fica registrado aqui é apenas o resultado desse primeiro contato, que foi bastante fugaz.

UAU:

WASHINGTON TUPINIQUIM. É muito legal fazer o chamado "turismo cívico" uma vez na vida e ver de perto os prédios de onde se governa o nosso imenso país, alinhados na Esplanada dos Ministérios. De repente, aquilo que parece distante e inatingível na TV se torna real e palpável. Ao contrário do que muitos imaginam, o astro-rei do pedaço não é o prédio ocupado pelo Presidente da República (o Palácio do Planalto tem a mesma arquitetura caixotesca de vários outros edifícios, e a tal rampa presidencial é pequena e sem glamour), mas a sede do Poder Legislativo: o Congresso Nacional, aquela construção com uma cúpula para cima (Câmara) e outra para baixo (Senado). Para quem tiver tempo e interesse, visitas guiadas mostram o interior da casa.

UMA CIDADE FOTOGÊNICA. Brasília é um destino interessante para quem curte fazer safáris fotográficos. Amantes de arquitetura (estou descobrindo que esse assunto me interessa mais do que eu imaginava) e turistas em geral se encantam com as construções modernistas desenhadas por Oscar Niemeyer - minha preferida é a Catedral Metropolitana. Durante os meses de estiagem, o céu da cidade ganha dramáticos tons de vermelho, laranja e rosa no fim do dia - é comum encontrar cartões postais retratando a capital nessa época. Eu, que não resisto a um bom pôr-do-sol, espero poder presenciar esse espetáculo algum dia.

QUALIDADE DE VIDA. O projeto urbanístico de Lúcio Costa criou uma cidade ampla e arejada, com prédios limitados a apenas seis andares de altura. Como resultado, sobram céu e horizonte, tudo o que falta em São Paulo. O trânsito flui bem, sem congestionamentos, e os motoristas parecem ter sido educados num colégio interno suíço: não passam de 60km/h, não usam a buzina e param para o pedestre atravessar (talvez por ser raro encontrar pedestres por lá). Não há pedintes: a lógica do Plano Piloto varre a miséria para baixo do tapete, confinando os pobres nas cidades-satélite vizinhas. Com isso, muita gente de fora acaba gostando de não encontrar os problemas típicos das metrópoles do Sudeste e resolve ficar de vez por lá, atraída pela remuneração dos concursos públicos.

RESTAURANTES CHARMOSOS. Cargos públicos com salários altos e embaixadas de vários países ajudam Brasília a ter uma gastronomia cosmopolita. Folheando o livrinho Conheça Brasília Gourmet, vi uma porção de restaurantes charmosos e convidativos, que infelizmente não tive chance de conhecer. Entre os poucos lugares que experimentei, recomendo o Bendito Suco, que serve sucos e wraps fantásticos na 413 Norte, e o versátil Quitinete, na 210 Sul, mistura de restaurante, empório e cafeteria que abre 24hs (e faz trufa de brigadeiro). Também vale a pena cruzar o Lago Paranoá e passear no Pontão do Lago Sul - não tanto pelos quatro restaurantes, mas pelo lindo visual da orla (as pheeenas chegam de barco) e a vista da Ponte JK.

AS FESTAS FERVEM. A cena gay de Brasília ainda vive aquele adorável frisson que tomava conta do Rio de Janeiro no passado: a expectativa em torno das festas. As duas principais label parties são a Fun e a Festa da Lili, que a título de comparação, seriam a X-Demente e a B.I.T.C.H. candangas. Os produtores são entrosados (não se enfrentam marcando festas na mesma noite) e os sites já disponibilizam as datas do ano inteiro, o que ajuda quem não é de Brasília a planejar uma visita. Mais incrível ainda é a Kiss, que só acontece duas vezes por ano (em função dos aniversários do casal de produtores). A locação é a própria casa dos fofos, uma espécie de chácara no Lago Oeste, com piscina e vista para um vale - é lindo o visual após o amanhecer. O clima é leve e o público, bastante variado, com polo boys, agrobarbies e meninas fervidas; para manter a energia do povo até o meio-dia, uma farta mesa de frutas e até uma improvável canja de galinha (viva o Centro-Oeste!). Aconselhado pelos amigos, marquei minha viagem em função da Kiss e não me arrependi: não fica devendo nada a qualquer boa festa do Sudeste, sem deixar de lado o clima caseiro, que é um diferencial.

UÓ:

NO CAR, NO FUN. Uma má notícia para quem gosta de passear a pé, sem depender de ninguém: Brasília está mais para Barra da Tijuca do que para Leblon. Não existe vida sem carro: não se veem esquinas ou pontos de ônibus, não se anda a pé, não se cruza com ninguém na rua, é tudo sobre rodas - diz o clichê que brasiliense já nasce com duas rodas no lugar das pernas. Quem cai de paraquedas descobre que as distâncias são enormes e os táxis, além de caros, não passam na rua: só atendem por chamado. Para o turista desenturmado, Brasília é uma roubada. Para aproveitá-la, é indispensável ter feito amigos com antecedência ou, pelo menos, chegar com alguns contatos que possam dar o caminho das pedras. Você acaba dependendo dos nativos o tempo todo. Se eu não tivesse tantas pessoas amáveis que se dispuseram a me choferar, eu provavelmente teria odiado a cidade.

PREÇOS EXORBITANTES. Numa cidade em que todo mundo é servidor público, ganha bem e tem estabilidade, não falta bala na agulha e tudo é caríssimo. Na pâtisserie Daniel Briand, um simples crepe com salada e um chocolate frio me custaram R$45. No Universal Diner, um dos restaurantes da conhecida chef Mara Alcamim, os pratos de carne beiram os R$60; na outra casa dela, chamada Zuu a.Z d.Z, não é difícil a conta passar dos R$200 por pessoa. No Plano Piloto, um apê de dois dormitórios na Asa Sul sai em torno de R$500 mil; no novo Setor Noroeste (que não está à beira do lago, nem tem atrativos naturais), especula-se que eles custarão mais de R$1 milhão (gata, com esse dinheiro, eu compro um apê nos Jardins, outro em Ipanema, e ainda mobilio os dois!)

NOITE CAPENGA. Se quando tem festa a cena se movimenta, em noites normais Brasília não parece ser muito animadora - Goiânia, no estado vizinho, está vivendo um momento bem melhor, com vários clubes recebendo atrações renomadas do circuito gay. Sem querer ser indelicado ou antipático, não me parece que lugares como o Oficina e o Beirute justifiquem, por si só, uma visita para quem vem de fora. A boate Blue Space e o bar Savana seriam as melhores opções fixas, mas já trataram de me avisar que 'as bunitas' não vão a nenhum desses lugares. O que leva à constatação de que Brasília sofre da horrível "síndrome de Porto Alegre": o que adianta ter um povo bonito, se ele não sai da toca?

OUTROS DETALHES que felizmente não senti na pele, mas são queixas recorrentes por parte de outros visitantes: o clima extremamente seco (no auge da estiagem, dizem que o nariz das pessoas chega a sangrar!) e o terror das gangues - Brasília deve ser a cidade brasileira que tem mais problemas com violência juvenil. Sabe como é, quem é gay já fica logo de orelha em pé quando escuta uma coisa dessas...

[Fotos: Catedral Metropolitana; Santuário Dom Bosco; Pontão do Lago Sul; Ponte JK; pista externa da Kiss aos primeiros sinais de que iria amanhecer; povo dando um tempo e curtindo a vista à beira da piscina]

Segunda-feira, Março 30, 2009

Aos candangos, com carinho

De uns anos para cá, depois de fazer algumas viagens internacionais e saciar minhas curiosidades mais imediatas e óbvias, vi despertar em mim uma vontade de conhecer melhor o meu próprio país. Visitar outros lugares, ouvir sotaques diferentes, assistir a novos pores-de-sol, fazer mais amizades. Urbanóide por natureza, tenho um interesse especial pelas capitais: ver como os bairros se distribuem, os nomes e traçados das ruas, as linhas de ônibus, o mapa do metrô, os parques, os espaços de lazer, a arquitetura, os mirantes com vista panorâmica, as roupas e a comida. E comparar as cidades entre si, um povo com o outro, voltar para casa e constatar que meu conhecimento do Brasil já é um pouco menos estreito do que antes.

Brasília era uma falta imperdoável no meu currículo. Uma cidade totalmente sui generis, com seu planejamento urbano em superquadras, subvertendo todos os nossos conceitos tradicionais. Além de ser a capital federal, que protagoniza os acontecimentos políticos, as decisões importantes. A gente vê imagens do Congresso e do Palácio do Planalto pela tevê, lê na Folha sobre o ministério disso e daquilo, e não tem muita noção de como isso é ao vivo. Se é grande, imponente, ou menor do que imagina. Uma cidade "em forma de avião"?! Como será isso? Como será o tal parque em que a Mônica chegou de moto e o Eduardo, de camelo?

Tive pouco menos de 48 horas. E a bruxa da chuva, que já tinha me perseguido em Porto Alegre e Vitória, deu o ar da graça novamente. Mesmo assim, acho que consegui absorver bastante informação e tive uma idéia bem razoável de como é a cidade. Mas minhas impressões sobre ela ficarão para o próximo post, amanhã. Este texto, escrevo para os candangos, amigos novos e antigos, que me receberam tão bem. Tiveram paciência para mostrar a cidade e dar explicações. Apresentaram seus amigos e fizeram eu me sentir acolhido. Foram parceiros de passeios, de mesa e de pista. Mostraram que meu blog era mais conhecido e lido do que eu pensava. Me deram carona em todos os momentos em que eu precisei. Importaram-se comigo e fizeram o possível para que eu aproveitasse tudo. A Clerton, Stan, André Manoel e Fernando, Daniel, Gustavo, Marco Antônio, Beto, Tiago, Humberto e Alexandre, Pedro e Thales, Simone, Caio do Cerrado Eletrônico, Lili, João, Paulo Augusto, deixo aqui meu muito obrigado pelo carinho e pela receptividade. Quando vierem para São Paulo, podem contar comigo.

Sexta-feira, Março 27, 2009

De tudo um pouco

::: "Procurando ovos de Páscoa? Venha para Berlim e encontrará milhares deles, pendurados no meio das pernas de machos fetichistas de todas as partes do mundo". Esse foi o singelo teaser que recebi hoje por e-mail da BLF, espécie de semana leather que acontece na capital alemã entre 8 e 14 de abril. São várias festas, para bailar y para follar, em clubes e sex clubs, culminando com a premiação do German Mr. Leather 2009. Esses concursos revelam o que nem sempre dá para esconder: por baixo de uma montanha de músculos, couro, correntes e cara de mau, pode bater um coração de miss!

::: Enquanto algumas partes do globo são prafrentex e tolerantes, outras insistem em continuar estacionadas na época das trevas e da intolerância. Não vou gastar meu latim falando das declarações patéticas defecadas pelo Vaticano, coisa que ele faz bem como ninguém. Mas li n'ACapa que Curitiba está sendo assolada por uma onda de ataques homofóbicos, com direito a spray pimenta, pedras e pedaços de pau. Lamentável, para dizer o mínimo. O espírito de porco de certos curitibocas, colonos e provincianos, não combina com uma cidade que se pretende tão evoluída. [UPDATE: depois de mais um ataque, um grupo GLBT local lançou uma cartilha recomendando que os gays fujam e se protejam como puderem].

::: E falando n'ACapa, achei super bonitinho eles descobrirem a cantora Stefhany - dois meses depois que o resto da humanidade. Mas compensaram o delay em mostrar a "nova sensação da internet" com uma entrevista com a fofa, que definitivamente colocou o Piauí no circuito das top divas deste vasto país. As produções dos clipes são mesmo hilárias, mas confesso que achei a melô do Crossfox melhor do que muita coisa nacional que toca nas rádios FM hoje. E é impressionante a capacidade da internet de gerar coisas "absurdinhas" e transformá-las em epidemia. Este artigo faz um retrospecto de vários virais que fizeram história, depois de especular se o hit da linda & absoluta não teria tido um dedinho oculto da Volkswagen.

::: Duas notinhas de comida, só pra manter o apetite. A Paola di Verona, rotisserie onde os glutões refinados de São Paulo compram massas recheadas incríveis, acaba de abrir um fast food na praça de alimentação do Center 3, na Paulista. Chama-se Paola e nesta semana está com uma promoção convidativa: fetuccine, refri e mousse de coco a R$16. O Spoleto, com aqueles molhos horríveis, pode começar a se preocupar. E lembram do À Côté, segunda casa da dona do Ruella, ali na Bela Cintra? Fiquei sabendo que fechou e, no lugar, vai abrir um contemporâneo com influências latinas, pilotado pelo chef do Zazá Bistrô, minha janta predileta no Rio de Janeiro.

::: "Dizia ele, estou indo pra Brasília... nesse país lugar melhor não há!" Finalmente, chegou minha hora de conhecer a capital federal, terra do "Faroeste Caboclo". Embarco hoje, rezando para a previsão de chuva da Climatempo estar equivocada, porque não quero viver outro pesadelo gaúcho. Vou pra fazer turismo, encontrar amigos e, claro, me jogar. Vi que a cena local super gira em torno de label parties. A Fun e a Lili são as mais conhecidas, mas há outras. Só neste sábado, vão rolar duas: Propulse, na Hípica, e Kiss, que tem reunido as top beeshas do Planalto Central em uma casa no alto de uma colina, com vista luxo. E tá que amanhã vai ter uma que se chama Festa da Keila? Essa só perde para a La Colocación de Niterói...

Terça-feira, Março 24, 2009

Volt, Sonique e Piaf: novas opções pré-balada

São Paulo tem a melhor noite do Brasil? Pode ser, mas ainda há espaço para fazer muita coisa. Uma de suas principais lacunas é a falta de bares legais para o público gay. Como eu já comentei aqui, nos anos 90 era mais comum o povo tomar na rua os drinks antes da boate; aos poucos, esse hábito foi perdendo força, e hoje os melhores esquentas são os chill ins esporádicos na casa dos outros. É uma delícia ser recebido pelos amigos, mas tem dias em que a gente quer sair, ver gente nova, só não quer fritar num clube de descamisados até altas horas. Nessas horas que pedem um fervo light, bons bares fazem falta. A gente vinha se virando com o Ritz, o Bar da Dida, o L'Open, mas cada um deles tem suas limitações (que não vou comentar aqui). A boa nova é que o circuito de bares friendly da cidade ganhou reforços - e finalmente fui conferi-los.

Primeiro fui ao Volt, nova cria de Facundo Guerra, do Vegas. Estreito e comprido, o bar é todo decorado com néons que os inferninhos da rua Augusta tiveram que remover por causa da Lei Cidade Limpa. Eles são a alma da decoração, que, no mais, tem apenas espelhos e uma parede de plantas (ops, "jardim vertical") no fundo. Nas mesas, uma fauna ampgalaxy: aqueles modernos meio assexuados que freqüentaram a Ouro Fino e o Lov.e e hoje usam bigode (é fashion), bonés e sneakers coloridos. Todo mundo já se conhece, então não convém chegar sozinho se você não for da tchurma absurdinha. Rádios virtuais de música eletrônica dão conta do som. O lugar é bacaninha, mas bem caro: pedi um único drink e 2 petiscos e gastei quase R$60, sendo que a trouxinha de queijo de cabra com tomatinhos assados era farinhenta e praticamente sem recheio (o gerente ouviu minha queixa com atenção, tomara que melhorem). Na porta, uma discreta door policy (coisa mais anos 90, que chato). Entrei sem problemas, mas amigos disseram que foram barrados porque a casa estaria cheia para recebê-los.

Enquanto o Volt faz a linha discreta, tipo ação entre amigos, o Sonique [foto superior] vem causando frisson, em uma parte cada vez mais disputada da rua Bela Cintra (Exquisito!, Bar Leblon, 269). A lógica do ambiente, um único volume retangular, lembra o D-Edge: linhas retas, lounges de sofás no canto direito, balcão do bar à esquerda, barras de luzes que piscam no teto. O cardápio tem drinks (também caros) e comidinhas; a música, muito boa, é num volume intermediário que permite conversar (alto) e dar uma dançadinha (leve). Mas eu achava que era um bar gay friendly e agora não estou entendendo nada: fui numa quarta com dois amigos e éramos os únicos três que não faziam a linha mauricinho-pós-Vila Olímpia. O segurança comentou comigo que, na véspera, "só tinha viado, 90% gay, tava duro aqui" e, na semana seguinte, a casa passou a impor uma consumação de R$40 - só para os homens. Ou seja, parece que o Sonique está tentando barrar a bicharada da vizinhança para se tornar apenas mais um reduto mauricinho da cidade. O que não nos impede de freqüentar, porque o lugar é legal (e ai de quem me censurar se eu beijar alguém lá dentro).

Por último, fui conhecer o Piaf [foto inferior]. A localização, no trecho mais low profile da Al. Franca (antes da 9 de Julho), já dá o tom: o lugar é calmo e aconchegante. A simplicidade do ambiente, claro e clean, é quebrada por detalhes de bom gosto, como as echarpes coloridas penduradas em algumas paredes. A parte mais bonita é o bar, com estilosos lustres bordô e uma peça de madeira rústica do Embu fazendo as vezes de balcão. O dono, gay, me explicou que não quer restringir a proposta da casa a esse público; na prática, o que se vê são alguns grupos de caras mais comportados, a maioria na faixa dos 30 aos 50, e suas amigas simpatizantes. No extenso menu, o caro sai barato e vice-versa: medalhão de filé a R$22 e um pratinho com quatro raviólis a R$31. Não pude provar a caipiroska de tangerina com pimenta rosa, hit da casa, porque a fruta tinha acabado. O ponto fraco é a música: eles precisam dar um trato urgente na coleção de CDs (ou arranjar um bom iPod). Cheguei a ouvir algumas músicas dance por quatro vezes em pouco mais de 2 horas (!), intercaladas pelo tango eletrônico da abertura de A Favorita. Com ajustes mínimos, um lugar fofo e do bem, ideal para comemorar um aniversário intimista.

Quinta-feira, Março 19, 2009

Pistinhas e pistonas

Faz tempo que não enfio o pé na jaca dicumforça - mesmo o meu Carnaval no Rio foi relativamente calmo nesse sentido, embora tenha rendido muito em outros aspectos. Normalmente, o cenário eletrônico começa o ano morno e engrena nesta época, com as especulações sobre o line up do Skol Beats. Neste ano, parece que não vai mais rolar o festival (que arriscou uma edição 'interativa' no ano passado, e nem assim conseguiu repetir o êxito dos velhos tempos no Autódromo), mas já estão aparecendo outras noites candidatas a zuar meu relógio biológico.

A primeira delas acontece dentro de algumas horas, no D-Edge. A caixa de neons piscantes da Alameda Olga tem trazido nomes fortes do circuito internacional nas noites de quinta-feira, e hoje o convidado é ninguém menos do que o top Steve Lawler. A escolha da quinta tem diversas explicações: é a noite do projeto Moving, de progressive house; tem o público mais abonado (me segurei aqui pra não dizer 'playboy') da semana, que pode pagar uma entrada de R$100 sem chiar; e, para um clube de dimensões reduzidas, é mais fácil dar conta da muvuca do que seria na sexta ou sábado.

O problema que, ao contrário dos club kids que nasceram com a vida ganha e não têm grandes responsabilidades no dia seguinte, eu não poderei me dar ao luxo de passar a noite em claro e ir trabalhar virado ou, pior ainda, dar um perdido no escritório. Então, terei que declinar da chance de ver um dos meus ídolos. Mas não vou perder o Sasha, outro top do progressive que tocará no dia 9 de abril - outra quinta-feira, mas dessa vez véspera de feriado, então beleza. Na semana anterior, o clubinho da Barra Funda recebe Tiga, DJ que aprecio mais pelo visual do que por ter criado um dos electros mais grudentos e enjoados ever, o hit "Sunglasses at Night".

Ocupando a lacuna deixada pelo Skol Beats, rola nesse sábado um outro evento de massa. O nome não poderia ser mais tosco: Spirit of London. Não, não é iniciativa da Cultura Inglesa, nem vai ter jam session com Oasis e Blur fazendo as pazes no palco (aparentemente, o nome não tem nenhuma explicação mesmo). O line up tem uma pegada bastante popular, para a molecada: uma tenda de psytrance para os fritos das raves, outra de drum n'bass para os manos (cada vez mais carentes de opções nesse estilo), um palco em que a atração principal é o radiofônico Robbie Rivera, uma tenda de tribal (de novo???) pras bichas baterem cabelo... A tenda de house até tem nomes bacanas (Léo Janeiro, Júlio Torres), mas eles podem ser melhor aproveitados em noites comuns em clubes, longe do drama que é encarar um Sambódromo coalhado de adolescentes debutando no mundo das drogas. Eu passo.

Por fim, a outra grande festa eletrônica do calendário próximo é a Skol Sensation, dia 4 de abril, no Pavilhão do Anhembi. É um evento menor e mais elitizado, importando um formato criado na Holanda. Cenografias, acrobacias e performances teatrais disputarão a atenção com os DJs, num pretensioso "espetáculo multimídia" coroado por uma árvore de 45 metros de altura bem no meio da pista. A existência de ingressos "camarote premium" (R$320) e "camarote diamond" (R$1000, com jantar na Daslu e transfer de limousine incluídos) sinaliza que o público-alvo é beeem playboy. E o dress code branco obrigatório não ajuda muito (já não basta ter que tirar do armário o "modelito oferenda" pra festa daquela bilu?). Mas meus amigos estão aderindo em massa e isso já desempatou a questão pra mim. Afinal, com uma enorme roda cheia de pessoas pra lá de queridas, todas na mesma onda, os demais detalhes muitas vezes perdem toda a importância.

Quarta-feira, Março 18, 2009

O homoerotismo exuberante da dupla Exterface


Flanando pelas notinhas do site Vipado, de meu amigo Ailton Botelho, vi uma notinha com algumas fotos de um ensaio feito com o Micky Friedmann, DJ de Israel que já se apresentou aqui. Achei todas lindas, segui o link para o resto do ensaio e me deparei com o belíssimo trabalho da dupla Exterface, formada por Stéphane e Julien, dois talentosos franceses de apenas 24 anos (mais sobre eles, aqui). Os ensaios, todos disponíveis no site deles, têm como denominador comum um homoerotismo elegante e criativo, com pitadas de bom humor e muita exuberância. Quem gosta de fotografia e curte o estilo do pernambucano Paulo Cabral não deve deixar de reconhecer as semelhanças: em vários trabalhos, a estética é idêntica. Recomendo uma olhada em todos os ensaios, mas meus prediletos são o fofíssimo Baby Bomb, o fetichista Master Slave, a piração fashion de L'Ivresse du Plaisir, a insônia desesperadora de 2:01, a releitura assanhada do garoto-prodígio em Boywonder e o amor ursino em negativo de Two Hearts.

Terça-feira, Março 17, 2009

Ela nunca disse adeus

Nem bem vazou a notícia de que a DOM não continuaria na editora Peixes, uma revoada de urubus se apressou em decretar a morte da revista. Alguns palpiteiros de plantão resolveram posar de especialistas e passaram a alardear aos quatro cantos as razões pelas quais a publicação teria "dado errado"; depois, tiveram que engolir o que disseram, e alguns até apagaram as bobagens que escreveram. Não conheciam os bastidores do que estava acontecendo e, mesmo assim, quiseram bancar os profundos conhecedores... mas o tempo se encarregou de mostrar que as "verdades" que despejaram não passavam de meras especulações.

A despeito de toda a torcida contrária, a DOM está nas bancas novamente. A pausa foi só um pouquinho maior do que o tempo que a Junior leva entre uma edição e outra. Não posso dizer que fiquei aliviado, porque eu sempre soube que a volta da revista era apenas uma questão burocrática entre duas editoras. Mesmo sem ter distribuição nacional (o que, salvo engano, nenhuma das três tem), a DOM já tinha conquistado um lugar ao sol: tinha leitores fiéis, era respeitada e logo se tornou líder no segmento.

Sinceramente, não acho nenhuma das revistas perfeita. Todas têm coisas que me atraem e outras que me desagradam (e eu leio todas, sim). Mas, com tudo o que eu curto e não curto, eu considero a DOM a mais honesta e consistente entre as publicações gays. Não é amadora, nem pretensiosa, nem deslumbrada (ainda bem). Sei que é difícil falar em ousadia em tempos de crise - o mercado editorial gay ainda é muito verde, apenas uma minoria tem o hábito de consumir revista - mas ainda sonho com o dia em que nossas revistas gays alcem vôos mais altos. Surpreendam o leitor mesmo. E acho sim que há espaço para mais de um título, porque o universo gay é muito vasto e variado, e ainda não está inteiramente representado. Conheço uma porção de gente que adora ler, mas não se identifica nem com a Junior, nem com a DOM, nem com a Aimé.

Termino o post com um recado para os que gostam das coisas que escrevo: na DOM deste mês, saiu uma matéria minha sobre Berlim, com todos os endereços e coordenadas para quem quiser se jogar por lá. E também assino a entrevista com o ator Kayky Brito, que saiu na capa dessa edição.

Quarta-feira, Março 11, 2009

Pra não dizer que não falei de selos

De alguns meses para cá, comecei a receber comentários de outros blogueiros dizendo que meu blog tinha recebido um selo e eu deveria "resgatá-lo". A brincadeira atende pelo nome de "meme": cada um que receber o tal selo deve indicar alguns blogs de que gosta (três, cinco, dez, depende do "meme") e seguir uma série de regras e instruções, que precisam ser coladas em um post e publicadas. Os blogueiros indicados colam o selo em seus blogs e repetem o procedimento, recomendando outros blogs, e assim a corrente segue adiante.

Pelo que entendi, o espírito da coisa é que cada um possa dar destaque aos colegas que admira; pelo "meme", os leitores seguem os links e acabam descobrido blogs novos, que não eram conhecidos (afinal, a rede tem um número interminável de blogs). Além disso, os selos que o blog vai recebendo e acumulando mostram que ele é reconhecido como bacana, servindo como uma espécie de prêmio que lustra o ego do blogueiro.

Apesar disso, tive várias razões para não aderir aos "memes", algumas bobas e outras mais sérias. Pra começar, sempre tive um certo bode de correntes e, por mais bonitinhos que os selos tentem ser, eles não deixam de poluir a página, como banners (anúncios). Além do mais, ao contrário do que acontece em outros blogs, aqui só são publicados textos escritos por mim, e não me agrada a idéia de começar a colar coisas de fora. Talvez um dia isso mude, mas por enquanto é essa a linha editorial que eu pretendo manter.

Outro motivo que considero relevante é o efeito colateral mais chato dos "memes": da mesma forma que estreitam o contato entre blogueiros, eles também geram animosidades e desafetos. As escolhas que você fizer para receber o selo invariavelmente vão melindrar outros blogueiros que esperavam ter sido citados (sobretudo por serem próximos a você), mas não contaram com sua indicação. Você pode não tê-los escolhido porque não admira os textos deles, mas também porque eles já têm exposição suficiente e você preferiu dar espaço a blogs menos divulgados. Mesmo assim, eles verão aquilo como um gongo e se magoarão por não terem sido reconhecidos.

E, acima de tudo, existe também o fator tempo. Com a rotina puxada que tenho, pra mim já é bastante difícil manter um ritmo de novos posts. Tenho pelo menos dez assuntos diferentes para desenvolver aqui, e não consigo. Se mal tenho tempo de atualizar o blog, que dirá passar uma corrente que me obriga a avisar dez indicados, conferir se cada um seguiu o "meme" corretamente etc. Prefiro usar o pouco tempo livre para escrever textos novos, ou tentar ficar em dia com meus blogs favoritos, que muitas vezes fico semanas sem visitar.

De qualquer maneira, fico muito grato por todos os meus colegas blogueiros que gostam dos meus textos e indicam o meu espaço. Mais do que receber selos ou visitas, o tipo de retorno que me importa, eu já recebo: comentários de ótimo nível (inteligentes, espirituosos, enriquecedores), novas amizades que surgem (no campo virtual e na vida real) e mesmo manifestações de carinho anônimas. Estou muito satisfeito com os frutos que venho colhendo com o blog. E outra: nada impede que eu use este espaço para indicar outros blogs, como já fiz várias vezes.